O que existe são momentos felizes, e na maioria deles eu não estou sóbrio.

Exatamente como agora.

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Os Melhores Discos que Eu Já Ouvi na Vida

Recentemente andava pela rua enquanto ouvia um som. Entre a atenção que eu dispensava às intempéries advindas das ruas de uma megalópole e ao álbum em questão eu percebi que sempre que minha atenção se voltava ao segundo objeto, o tal álbum estava em uma parte incrível, coincidência? Pois bem, nesse mesmo dia eu ouvi o álbum ainda outras duas vezes (sim, eu andei bastante) e percebi que de fato aquele álbum era incrível e genial em sua totalidade. Quando isso acontece é de um prazer idílico, retumbante, achar algo que do início ao fim soe perfeito pra você, seja um filme, um álbum, um casamento ou uma piada, é algo a se comemorar. Ainda inebriado pela descoberta eu fui buscar pela memória quais outros álbuns soavam perfeitos aos meus ouvidos, de cara me dei conta da primeira vez que tive essa sensação, fui além e depois de um dia e meio de reflexão cheguei ao número seis. É bom que se saliente que eu sou quase um iniciante no conhecimento e no aprofundamento musical, isso, não sei exatamente, pode ser um fator que ajude ou atrapalhe essas descobertas por esses álbuns perfeitos mas por mais que o tempo passe e o meu gosto talvez se refine, não acredito que esses seis álbuns vão deixar de figurar nessa lista. São eles em ordem cronológica de audição:

20120701194748!Achtung_Baby – Achtung Baby – U2 (1991)

Em fevereiro de 2006 o U2 trouxe ao Brasil sua Vertigo Tour. Em fevereiro de 2006 eu nunca tinha ouvido falar de U2 e eu também tinha acabado de me formar no ensino médio e não tinha ideia do que ia fazer da vida (mais ou menos como hoje). Naquela época a Speedy (pra quem não lembra ou não sabe, era a banda larga da problemática Companhia Telefonica, responsável pelas linhas telefônicas de São Paulo) fez uma promoção e o prêmio eram ingressos para ver um dos shows da banda que seria no estádio do Morumbi. Eu nunca participo de promoções por que eu nunca ganho (ou o contrário, sei lá), mas essa promoção era diferente, não dependia de sorteio, era um quiz sobre a banda e as dez pessoas que respondessem mais perguntas corretamente em menos tempo levariam um par de ingressos, opa, sendo assim eu posso ganhar, disse uma vozinha na minha cabeça. Desta forma eu fui estudar sobre U2, comecei a ler tudo o que tinha sobre a banda na internet, obviamente bateu a vontade de ouvir alguma coisa. Antes um parênteses, meu pai tem uma grande coleção de lp’s e uma um pouco menor de cd’s. Então eu fui a caça de algo da banda nessas coleções, para minha surpresa encontrei o cd Where The Streets Have no Name e os lp’s Where The Streets Have No Name, Rattle and Hum, October, Zooropa e Achtung Baby. Quem diria, meu pai um fã de U2! Na verdade não, ele mal sabia que tinha esses lp’s em casa, parte da coleção veio de “herança” de parentes e amigos que queriam se livrar das bolachas, pra minha sorte ele aceitava tudo! Lembro inclusive que a primeira vez em que eu ouvi o álbum Where the Streets… eu achei que meu som estivesse quebrado pois a música não começava nunca!

Comecei a ouvir U2 insistentemente e a pesquisar absurdamente sobre a banda. Quando eu pensei em participar da promoção eu pouco me importava se ganharia ou não, no dia do quiz eu estava tremendamente nervoso, os ingressos haviam se esgotado em pouquíssimas horas dias antes, ainda quando eu não era fã da banda, depois, quando eu já amava os quatro rapazes de Dublin, a minha única opção de ver o show in loco seria graças à Speedy.

Eu não ganhei a promoção, dá pra imaginar o quão arrasado eu fiquei, mas como consolo houve o fato de o primeiro show ser transmitido pela Globo, show que eu vi imóvel, do sofá da sala, numa mistura de tristeza e conformação.

Mas eu nem falei sobre o Achtung Baby ainda. Eu ouvi diversas vezes todos os álbuns do U2, inclusive todos na sequência e no mesmo dia. Mas foi em Barcelona, em uma viagem de intercâmbio em 2011, que o álbum me pegou de vez. Eu havia acabado de comprar um iPod Classic e carreguei ele com todos as músicas que eu tinha no computador (uns 80Gb) e diante dessa enormidade de álbuns eu pensei sobre qual eu iria ouvir primeiro no meu recém comprado iPod, escolhi Achtung Baby ao acaso. Ao dar play a guitarra de The Edge rasgou o fone esquerdo, entristecido eu imaginei que esses filhos da puta da Apple deviam colocar qualquer álbum baixado ilegalmente em mono, só pra foder a galera, já ia apertando o stop quando os efeitos se completaram do lado direito, quase fui ao delírio. Era a primeira vez que eu ouvia Achtung Baby no fone de ouvido, contemplando tão minuciosamente sua mixagem. Depois deitei na cama e acabei de ouvir o álbum. Impecável. Ainda nessa viagem passei um fim de semana na Alemanha e durante toda a minha estada lá só ouvi Achtung Baby (Achtung, para quem não sabe, é “cuidado” em alemão), desde então é um dos meus álbuns perfeitos.

pink-floyd-dark-side-of-the-moon-album-cover – The Dark Side of the Moon – Pink Floyd (1973)

Em 2008, no auge dos meus 20 anos, eu ainda nunca tinha ouvido conscientemente uma música do Pink Floyd. E calhou que a primeira vez que eu ouvi uma música da banda foi das mãos de Roger Waters. Em 2008 o baixista trouxe à São Paulo a turnê onde ele executava o álbum do prisma inteiro. Um amigo, temendo não ter outra oportunidade de ver o sr. Waters me convenceu a ir ver o show mesmo eu não conhecendo nada da banda, e eu, aprendendo a lição do U2, decidi comprar o ingresso mesmo não sendo fã, vai que no meio do caminho eu me apaixone pela banda e os ingressos se esgotem, esse risco eu não corro mais, se alguém me noticia um show de uma banda que talvez eu possa curtir, eu garanto o ingresso. Nesse caso não foi amor a primeira vista, o show foi bom, o espetáculo visual foi incrível e por motivos que eu já escrevi nesse blog, o show acabou sendo apenas ok. Chegando em casa fui em busca de algo do Pink Floyd nas coleções do meu pai e, claro, achei algumas preciosidades. Além do Dark Side com prensagem da época também achei Wish You Where Here, The Final Cut, The Delicate Sound of Thunder e A Momentary Lapse or Reason em lp (sendo que The Final Cut e A Momentary Lapse of Reason ele tem dois de cada!) e The Wall, The Division Bell e Pulse em cd.

A primeira vez que eu coloquei a bolacha pra rodar eu comecei do lado b e terminei no a sem perceber. Lembro até hoje da cara do amigo que me convidou pro show quando eu disse isso a ele, parecia que eu tinha destruído o disco. Um disco desses ouvir fora de ordem é uma heresia. E é mesmo, até hoje eu não consigo ouvir uma música específica do Dark Side, ou eu ouço ele inteiro ou não ouço nada.

O próprio Roger Waters disse que The Dark Side of the Moon é um álbum praticamente perfeito, quem sou eu pra discordar.

in_rainbows_official_cover1 – In Rainbows – Radiohead (2007)

Em 2009 um festival chamado Just a Fest conseguiu fazer o que muitos haviam tentado antes mas ninguém conseguiu, trazer o Radiohead pro Brasil, e até o momento ninguém conseguiu traze-los novamente. O festival aconteceu na Chácara do Jóquei, um lugar longe, frio e cheio de lama, o fato é que valia a pena, além do Radiohead eles também trouxeram Kraftwerk e ainda conseguiram reunir o Los Hermanos pra um dos vários shows que eles fizeram depois do fim da banda. Como nos casos anteriores tratava-se de um show que eu conhecia pouco ou quase nada das bandas envolvidas, só que nesse caso eu já conhecia um pouco de Radiohead, na verdade conhecia apenas o The Best of Radiohead, um cd duplo magnífico mas que por questão cronológica não tinha nenhuma música do In Rainbows. Então fui eu, minha então namorada e um amigo pra ver o show (o mesmo que me convenceu a ir ver o Roger Waters no Morumbi). Eu me lembro bem de três coisas, de que o meu amigo estava triste com alguma coisa, minha então namorada emburrada com outra coisa e que eu, ignorando totalmente o humor dos dois, curti um dos melhores shows que tinha visto na vida até então, um primor técnico e tático para parafrasear os comentaristas do mundo da bola. Foi um show magnifico. Já no final, não suportando mais as caras feias dos outros dois, eu me dirigia com eles para os portões antes da última música pra tentar evitar a dor de cabeça do estacionamento e da saída lotados. Foi quando Jonny Greenwood começou os primeiros acordes de Creep, a maior carne de vaca da banda, mas uma música sensacional, larguei os dois e saí correndo em direção ao palco.

Depois em casa fui ouvir com calma o In Rainbows e outras coisas do Radiohead, Ok Computer é sensacional, Rail to Thief é muito bom mas o álbum de 2007 é simplesmente espetacular, tanto o original quanto o lado b lançado posteriormente com a incrivelmente linda Last Flowers. No entanto aqui eu faço uma ressalva. De todas as músicas de todos os álbuns citados nesse post, House of Cards é a única que até hoje não mexeu comigo, acho ela chata, simples assim, mas eu a vejo como um obstáculo a ser superado antes de receber o prêmio que é ouvir a melhor música já gravada pelo Radiohead, Jigsaw Falling Into Place.

Whatever_People_Say_I_Am,_That's_What_I'm_Not – Whetever People Say I’m, That’s What I’m Not – Arctic Monkeys (2006)

Eu tinha uma banda com colegas da faculdade que ensaiava uma vez por semestre. Uma vez ou outra conseguíamos engatar uma sequência de ensaios mas em três anos de existência acredito que nossa média de ensaios deva ter sido essa, um por semestre. A lógica era simples, cada integrante da banda escolhia uma música, ensaiávamos em casa e depois íamos pro estúdio tocar juntos, com o tempo, teoricamente, iriamos acumulando músicas e montaríamos um set pra tocar em algum lugar. Não foi o que aconteceu, nunca tocamos em lugar algum que não tenha sido no estúdio, pra nós mesmos. Num dos ensaios o baterista da banda escolheu The View from the Afternoon, o meu desconhecimento sobre a banda era tão grande que após ele me falar o nome da música eu anotei Devil from the Afternoon no caderno, o que fez com eu demorasse alguns bons minutos pra achar a música na internet. E depois de achar eu senti a pedrada que era, ouvi a música umas cinquenta vezes seguidas pra tirar o baixo dela até que finalmente consegui. Eu, a essa altura já um fã incondicional de Pink Floyd, tenho o hábito de sempre ouvir álbuns inteiros, nem que apenas uma vez. Não curto pescar músicas aleatórias que ouvi na rádio ou que eu gostei em um show. Então baixei o álbum em questão e ouvi direto uma cinquenta vezes (sempre pulando a primeira música, claro), sem exagero, foram vários dias e até hoje eu me pego fascinado pelo álbum e o escutando repetidamente (The View from Afternoon já ficou audível de novo pra mim!), dessa lista inteira esse é provavelmente o álbum que eu mais ouvi. Pelo menos pra uma coisa a minha banda serviu.

beatles-abbey-road-album – Abbey Road – The Beatles (1969)

O álbum mais antigo da lista foi o penúltimo a ganhar o meu coração. Obviamente eu conhecia Beatles há algum tempo, não muito pra falar a verdade, em meados de 2009 eu baixei a discografia completa da banda e por dever moral e cívico me pus a ouvir tudo. Mas a maioria das coisas foi meio automática. Por isso o arrebatamento que o álbum me causou só veio em 2011 quando eu visitei Abbey Road. No momento em que desci do metrô na estação St. John’s Wood eu comecei a ouvir o álbum. Confesso que depois que saí de Londres não ouvi o álbum muitas vezes mais (nessa época eu também estava me apaixonando por Achtung Baby) mas uma coisa mexeu comigo profundamente, a passagem de I Want You para Here Comes the Sun. Eu já tinha ouvido algo parecido na coletânea Love quando I Want You se transforma em Help! e tinha achado sensacional mas a quebra pra Here Comes the Sun é uma daquelas coisas que fazem o peão perder a força nas pernas. Depois ouvi mais e mais e mais e hoje eu não consigo achar nada nesse álbum que não esteja exatamente onde deveria estar.

stone-roses-second – Second Coming – The Stone Roses (1994)

Enfim chegamos a 2014, mais precisamente a ontem, 2 de abril. Tudo o que eu conhecia do Stone Roses era o consagradíssimo primeiro álbum da banda e sinceramente eu não tinha gostado. Achei estranhíssimo. A voz do Ian Brown me soava como música japonesa, sei lá. E então o amigo que havia me apresentado a banda (que não é aquele amigo dos shows do Roger Waters e do Radiohead) me sugeriu ouvir o segundo álbum, de acordo com ele, “mais rock’n roll”. Baixei-o e aguardei. Não por que eu precisava aguardar mas por que procrastinação é uma das minhas características básicas. E se passaram anos até que eu finalmente me dispusesse a ouvir o álbum de 1994. De cara Breaking Into Heaven se tornou uma das melhores músicas que eu já tinha ouvido na vida. E depois eu percebi que as guitarras de John Squire eram de uma complexidade absurda e até a voz do Ian ficou soberba, sem contar as linhas de baixo e de bateria que… AH! É um absurdo, o álbum inteiro é um absurdo, até a estranhíssima e lindíssima The Foz é incrível através dos seus seis longos minutos.

Resta agora, à luz do Second Coming, revisitar o primeiro álbum e descobrir de uma vez por todas se o problema dele é comigo ou se o meu problema é com ele.


Dentre a seleção acima não figuram diversas das melhores bandas que já pisaram nesse planeta azul e eu fiquei imaginando o porquê. Acontece que muito do poder dessas bandas está no som ao vivo que eles fazem ou em coisas específicas de músicas específicas e não na construção de um álbum inteiro em si, algo mais pautado na engenharia e não na visceralidade.

Logo, o único critério que eu defino pra essa lista é o de que eu quero que esses álbuns figurem nessa lista com esse nome. Espero (e tenho certeza) que ela não irá parar por aí. Fico apenas imaginando quando que eu terei de novo aquele estalo que diz, você está diante uma obra prima.

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Carol Lacerda e Lucas Dias – Comofaz/Mulher

Som interpretado pela minha prima Carol e com o groove animal do Lucas. Curti muito esse som!

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8 de março, o sexo e o sexualidade.

Liberdade de poder falar sobre sexo, de poder ser curioso, de discuti-lo e melhorá-lo, uma das tantas lutas de uma mentalidade realmente livre e das mulheres em particular. Algo que a igreja não podia tornar pecaminoso na Alemanha Oriental simplesmente por que não havia religião lá. Os comunistas transam melhor? Este documentário, que é o meu presente para todos, homens e mulheres, neste 8 de março, discute essa ideia.

São 51 minutos e está em inglês mas vale muito a pena. Se alguem encontrar com legendas em português não hesite em compartilhá-lo.

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Hoje uma lágrima escorreu no rosto de uma menina.

Hoje uma lágrima escorreu no rosto de uma menina. Uma lágrima apenas. No olho direito. Ela estava dentro do ônibus municipal, usava jeans e blusinha vermelha, tinha cabelos pretos e lisos, olhos castanhos, algumas sardas. Usava apenas um fone de ouvido na orelha direita… Ela não ouvia música, ela aguardava uma ligação. Antes disso um rapaz segurou seu braço, tá bom, não era um rapaz, era um senhor. Seu pai. Ele queria saber o que ela queria de fato fazer com sua vida.

Quisera assim que os pais sempre queiram saber o que os filhos farão da vida. Ela não sabia, problema de quem? Dela, que fosse, de ninguém que realmente importasse. Fabiana seguiu… podemos chamá-la Fabiana? Tá bom, Gabriela enfim seguiu em direção à casa de seu amigo Adalton. Adalton buscou consolo, aconselhou, debateu, falou quase o mesmo tanto que ela, ele não era lacônico, não, de forma alguma, Adalton falou bastante, lá pelas tantas Gabriela confessou, amava alguém, gostava de alguém, Adalton deu de ombros, Gabriela queria sei lá o que fosse da vida, talvez se casar, talvez fazer faculdade, talvez se mudar, morar em São José, em Extrema, Itapecerica da Serra, Araçatuba, sofrer de amor pra sempre como naquele filme do Coutinho, ir embora pra sempre, ir pra Europa, ficar, lutar, chorar um bocado de vezes, muitas mesmo, aprender que nada disso importa, chorar mais por causa disso, ir pra esquerda, ir pra direita, centro, classe média, classe baixa, lutar por causas, no fim de tudo amar de novo. Será possível? Não é uma questão de possibilidades, aprendeu Gabriela, é uma questão de quando.

Gabriela amou de novo e agora abria seu coração para… qual era mesmo o nome dele? Airton. Airton suspirou, percebeu e discutiu. Gabriela… Airton abraçou-a, não faz assim, o mundo é isso mesmo, a vida é boa, é um presente e devemos aceitá-lo, o problema é que a maioria da gente não o desembrulha antes de aproveitá-lo, Gabriela assentiu, abraçou Airton mais uma vez, estavam juntos. Airton se afastou, contou uma piada, maneou a cabeça, pediu por algo, não com palavras, apenas pediu, Gabriela franziu o cenho, que foi? Gabriela, olhe nos meus olhos, você gosta de mim, não é? Gabriela olhou pros lados, pensou por um milésimo de segundo, que vale mais? O ego dele ou a minha verdade? Valia mais a verdade dela, o ego de Airton foi suprimido, não era ele o alvo do amor de Gabriela.

Gabriela, naquela mesmíssima tarde, contou à Airton, encontrou César. César havia perguntado a ela em tom categórico sobre o que ela queria? Gabriela não respondeu, nem deu de ombros, nem suspirou, nem pensou, apenas não respondeu, sentiu que aquela não era a hora. Perguntou se podia sentar, se podia acender um cigarro, se podia beber um gole, se podia brigar com alguém, não, nada disso seria possível. Gabriela percebeu, não perguntou nada, só sentou, César sentou do seu lado, segurou sua mão, olhou em seus olhos e a demitiu. Gabriela não tinha emprego, amava alguém e agora acabara de descobrir que tinha um amigo confuso.

Airton mal pensou e já disparou, Gabriela estava errada, seja lá pelo que fosse o motivo da demissão, Gabriela estava errada porquê ser demitido é uma falha de caráter, pensou Airton, Gabriela resignada perguntou se havia cerveja na casa, diante da negativa apressou-se em se dirigir à um bar, Airton, como que se sentindo convidado foi atrás, Gabriela olhou de soslaio e fez que tanto faz, vamo-nos. O bar era todo amarelo e lindo, impecável, balcão de madeira em perfeito estado, limpo, bancos de metal perfeitamente enfileirados, mesas de plástico secas. O bar não estava aberto ainda, Gabriela teve que usar de um pouco de lábia e um tanto de charme para que os deixassem entrar. Sentaram e conversaram.

Gabriela, pensava Airton, era uma menina forte, bonita, resolvida, tristonha e sagaz. Gabriela, pensava Gabriela, era uma menina tristonha e sagaz. Gabriela então, logo de cara, sugeriu à Airton um shot de tequila, algo pra começar a conversa, Airton, que tinha tido sua vontade feita pela última vez nos idos de 1999 aceitou. Outro shot? Claro. Então, disse Gabriela enquanto suspirava, amo alguém, amo mesmo, de verdade, parece até clichê, mas é o que é mesmo, então foda-se. Gabriela o conheceu no verão de 2012, em São Paulo, capital. Estavam os dois comprando bugigangas na feirinha de domingo do Center 3. Ele escolheu uma camiseta específica e Gabriela riu, depois disso um convite para uma cerveja e doze cervejas depois ele a beijou. Só isso, só um beijo, um dos longos, mas só um beijo, andar pela calçada de mãos dadas e chegar ao metrô que já estava aberto. Ela se foi, ele ficou. Facebook, sms e se encontraram de novo, claro. Foram comer uma coxinha em uma padaria na zona norte, de esquina, simpática, a melhor coxinha que aquelas papilas gustativas já haviam saboreado, ideia dele. Onde se vendia coxinha não tinha cerveja e onde se vendia cerveja não tinha coxinha e por isso a noite esticou pra um bar, que depois de algum gole virou dois bares, cama, sexo. E nesse momento Gabriela, sorumbática, disse que queria vê-lo de novo. Airton de sobressalto interpelou, que como assim, que aquela história não podia acabar daquele jeito, coxinha e sexo? Gabriela arregalou os olhos, não era coxinha e sexo, era a melhor coxinha e o melhor sexo de sua vida. Airton desdenhou perguntando como ela poderia saber daquilo, Gabriela retrucou, lembra de Breaking Into Heaven do Stone Roses; claro, assentiu Airton, é a melhor música já feita; era melhor que isso, categorizou Gabriela. A coxinha ou o sexo, perguntou um boquiaberto Airton. O sexo, disse Gabriela.

Airton encostou suas costas no encosto da cadeira, roubou um petisco do prato de porções que haviam pedido e mastigou de boca aberta. Airton não era bom de cama, dava prazer às mulheres, claro, mas não na intensidade que elas queriam. Ver uma mulher realizada na sua frente não estava nos seus planos para o fim de tarde, começo de noite, e isso lhe fez mal. Mas Airton aceitou e pediu detalhes. Gabriela disse algo sobre o uso da língua, a força dos dedos, a importância dos genitais. Airton só não anotou em um bloco de papel por que não o tinha à mão e principalmente por que isso não iria parecer adequado naquele momento mas fez um esforço hercúleo para decorar. Ainda tentando lembrar dos detalhes sem deixar de se importar com a amiga ali na frente, perguntou por que que fazia mais de um ano que eles não se viam. Gabriela pediu mais um shot. Após consumir o drinque mexicano ela segurou a mão de Airton; é o seguinte, prosseguiu com esforço ao pronunciar as palavras, o meu pai… era sempre a mesma coisa… se quiséssemos ficar juntos por mais que algumas horas além da madrugada eu tinha que arrumar uma forma de oferecer uma verdade alternativa ao meu pai, completou Gabriela enquanto revirava os olhos pra cima, buscando um respingo de razão naquela afirmação.

E foi assim, indagou Airton, que tudo terminou? Quem me dera, soluçou Gabriela. Em uma noite de frio meu pai cismou que ia me buscar onde eu estava, acontece que eu não estava onde eu deveria estar, eu estava tendo uma daquelas noites maravilhosas de sexo, meu pai achava que eu dormia na casa da Mariana. Ele foi lá, não me achou, me ligou, eu abri o jogo, ele também. Eu havia mentido por que eu sabia que não podia sair de casa dizendo que estava indo ter um orgasmo, ele foi me buscar por que assistiu no Fantástico que havia um assassino em série no bairro onde eu estava que invadia casas e assassinava as pessoas com facadas no pescoço. Nesse momento Airton riu, não acreditou em duas coisas, primeiro que pudesse haver um serial killers no Brasil, segundo que alguém poderia ir buscar a filha só por que o Fantástico noticiou algo. Pois bem, ambas as coisas aconteceram. Mas o fato é que Gabriela estava segura, ela não estava no Brás, lar do assassino e de Mariana, ela estava transando e atendeu o telefone ainda levemente ofegante. O pai de Gabriela a buscou, debateu, brigou com seu affair e chorou pelo hímen perdido. Gabriela só não acendeu um cigarro por que não o tinha. Depois disso foi uma desilusão atrás de outra. Gabriela, injuriada, aquietou-se, sequer foi trabalhar, perdeu o emprego, perdeu o moçoilo e agora perdia a sobriedade. E o que fazer? Perguntou ela em um tom retórico que Airton não entendeu. Airton, diante da pergunta que não exigia resposta, poderia ter pedido outra cerveja, comido mais um petisco do prato, ido ao banheiro, cantado a garçonete, bocejado, tirado o falo pra fora e martelado a mesa.

Não. Ele apenas perguntou, mas por que você fez isso? (sic). Gabriela, que já estava bem bêbada, tentou interpretar a pergunta e após uns dois segundo que pareceram horas na cabeça dela, e ver que era inútil tentar interpretar a pergunta, perguntou, isso o que? Sabe, mentir, fugir, não ir trabalhar… Era esse todo o argumento de Airton, não havia mais nada. Gabriela, ainda cambaleante, se levantou, olhou as horas no celular, foi até o banheiro, antes de voltar pra mesa mandou uma mensagem para Pedro (aliás, acho que eu não havia dito ainda, o deus do sexo que havia dado tanto prazer à Gabriela se chamava Pedro), mais uma tentativa, quem sabe essa funcionasse, parou no caixa, pagou metade da conta, voltou à mesa, deu um beijo em Airton, lhe sorriu condescendente e saiu pra rua com uma garrafinha de água na mão. Airton não foi atrás porque nem sua cerveja nem a porção haviam acabado mas a chamou umas duas vezes.

Ainda eram oito horas da noite, Gabriela pegou o ônibus, tirou o celular e naquele dia não decidiu entre The Black Keys e Radio Moscow, só colocou o fone no ouvido e esperou que o telefone vibrasse enquanto uma lágrima rolava em seu rosto. O cobrador, o motorista, a moça do lado, o passageiro do ônibus que observava com interesse sua beleza, os transeuntes na rua, o mundo inteiro só vê a lágrima, o fone de ouvido e a blusinha vermelha, todo o resto é Gabriela quem sente.

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O Pior de 2014

Um ano que tem tudo pra ser complicado, uma Copa do Mundo de futebol que ninguém sabe como será nem dentro e nem fora dos campos, uma eleição presidencial onde uma presidenta que amarga diminuição de sua aprovação popular tentará a reeleição e o aniversário de 50 anos do que talvez possamos chamar de um dos piores dias para a história da nação, o 31 de  março de 64. Só isso já basta pra dizer que 2014 seria sui generis. Mas quis sei lá quem que este ano tivesse mais algumas peculiaridades, e assim o ano de 2014 teve no segundo dia do seu segundo mês a morte de dois nomes importantíssimos para o cinema mundial. Um deles, talvez, o maior documentarista que pisou nesse planeta, e dói de muitas formas, não só pelo absurdo da proporção da tragédia, algo que seria abominável com quem quer que fosse, mas também por que sabíamos que Eduardo Coutinho, no auge dos seus 80 anos de idade, ainda tinha muito o que contribuir com o cinema, e isso dói, isso dói demais, um homem que sempre tratou seus temas com tanta sensibilidade e seus entrevistados com tanta humanidade não poderia nos deixar de forma tão macabra. Gênios como Coutinho não deveriam sequer terminar de viver, muito menos ter sua existência abreviada dessa forma. E essa falta também machuca quando pensamos em Philip Seymour Hoffman, machuca reviver todo o pesadelo que passei no início de 2008 quando no dia 22 de janeiro o mundo perdeu Heath Ledger e tudo o que ele ainda teria sido nas telas e fora dela. Dói demais pensar que nós nunca mais seremos agraciados com a visão desses sujeitos sobre a vida humana, sobre como representá-la, sobre como ser alguém que ainda não se é. Como um capricho, Hoffman se foi após fazer o que considero a sua melhor atuação em parceria com Paul Thomas Anderson, sendo o Mestre do título do filme e atuando ao lado de Joaquim Phoenix, o que pra mim representa o supra sumo do atual cinema juntos, ali na tela, algo que me deixou cheio de expectativas e algo que não verei mais, exatamente como Ledger, que logo antes de morrer nos mostrou a intrigante e instigante figura do Coringa no Batman de Christopher Nolan. Ledger antes, Hoffman e Coutinho agora, cada vez que isso acontece são diversas sensações terríveis em ebulição dentro de mim e no fim sempre uma mesma tristeza. E isso me leva à primeira vez que senti essa tristeza, 1º de julho de 2004, um domingo, quando uma pequena reportagem do Fantástico da Globo anunciava que Marlon Brando não estava mais entre nós. Vão-se os gênios, ficam seus fillmes.

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O Melhor de 2013

Digamos por assim dizer que a construção que se erguia do chão era cinza,
Que os carros surgiam e gritavam palavrões obscenos,
Que a menina tropeçava e caia do céu no chão.
Que a fila do café seguia longe. E os felizardos
Comiam à vontade enquanto os outros sugavam
Loucos os farelos remanescentes do sono no chão.
E a moral surge do nada escolhendo aqueles que
Acertam em tudo e aqueles que erram sempre.
A chuva branda coroa a cabeça de quem resiste,
De quem perdeu a letra mas abriu a boca
Na hora H e enfrentou sozinho a força da polícia
Em seus cavalos flamejantes e de borracha,
Suas tropas de choque 450 volts.
A noite clara e o dia escuro completam a cena
Que aquece o coração dos sonâmbulos, e o respeito à
Opinião dos bêbados.
O som da guitarra desafinada soca a veia e faz
O sangue verter-se em fel. A liberdade nunca sai
Da ponta da caneta, só alimenta os desafetos
E os desabafos tortos e direitos. Debaixo do
Poste amarelo os olhos se tocam com uma intensidade
De carnaval, as mãos se laçam com uma complexidade
Fundamental. A roupa implora o chão e o público anima-se
Com os primeiros acordes da orquestra frenética.
 
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