Josué

Lady Letícia tirou o cigarro da boca e baforou na cara de seu amado. Lady Letícia não era uma lady e aquele a quem ela dirigiu a baforada não era alvo de seu amor. Josué nunca gostou de festas à fantasia, muito menos quando recebia baforadas na cara, ainda mais de quem pressupunha haver um esboço de estímulo para o que quer que seja, e só isso importa, o que quer que seja, pensava ele em meio às baforadas da área de fumantes. Ela deveria ser mantida sob sua asa já que era só com ela que ele conseguia conversar, era só dela que aguentava baforadas, pigarros, deslumbres, dias inteiros de uísque, Mélanie Laurent (filme e música) e amigos imaginários, debates acerca de uma causa perdida e sua personalidade insalubre. Personalidades, tais quais times de futebol, devem muito, não sabem muita coisa e tem torcidas insanas. Personalidades matam, mentem, conseguem o que querem, cospem, dormem na rua, andam de metrô, publicam livros, artigos, cartilhas, discos e brigam. Personalidades tem opiniões, e isso Josué não suportava. No fundo Josué, de tantos amores perdidos, não sabia mais como conversar, e por isso travestia sua misantropia de ódio ao culto narcisistico. Josué nunca soube quem fora Narciso. Josué era um filisteu, um moribundo, um amante de Letícia. Letícia era alta, esbelta, orgulhosa de seu busto largo, sua coxas morenas, sua pele sedosa, sua personalidade intricada, sua inteligência abundante, seus olhos verdes, sua capacidade que abstrair a razão da indecisão dos outros, de fazer os outros crerem em algo novo, de crer em algo novo, Letícia almejava. Josué delirava. Letícia queria, Josué desejava. Após apagar o cigarro Josué se afastou, foi procurar algo que beber, Letícia foi pra perto dele, ele foi pra perto de si. Já com o copo na mão sentiu de novo aquele resquício de confiança que lhe alcançava os calcanhares quando a cabeça já estava cheia, Letícia olhou-lhe de soslaio, balbuciou algo no ar, Josué não captou, o baile bailava entre os dois, olhos de um lado, evasivas do outro, após desviar o olhar, Josué voltava mas já não os tinha mais, não os tinha não por que sabia que não os queria, mas por que sabia que olhar era uma comunicação avançada demais pra sua dialética curta. Tomou então a varanda, Letícia não o seguiu, culpou essa falta dos passos dela por sua miséria da noite, pura mentira. Ao chegar à varanda avistou uma lua brilhosa, cheia, em seu perigeu, confidenciou a si mesmo como ela estava linda. Imaginou uma canção perfeita para aquele momento, uma ocorreu-lhe, imaginou-a até onde conseguiu, depois percebeu que era triste demais e desviou o olhar para baixo, fitou a grama, as rosas, margaridas, acácias, pés de goiaba, a mangueira no fundo, uns transeuntes na frente, uma moçoila de cabelos encaracolados atrás, ruivos, não se via o rosto, não se via quem poderia ser mesmo alguns minutos depois, passavam os garçons, roubava-lhes os copos e nada dela virar. Mirou o lago, era lá longe, inteiro prateado, vestia-se de gala na noite que mais podia chegar perto de sua amada. E vibracejava. Ondulava marolas que iam até à beira e depois voltavam ritualisticamente. Ritualisticamente Josué foi buscar outro copo do que quer que fosse. Cerveja, intencionava, conseguiu vinho tinto. De costas para ele um amigo antigo, percebeu pela voz e foi atrás, cutucou-lhe o ombro e teve a surpresa da surpresa do amigo, abraçaram-se, ele então lhe chamou até a um canto onde estavam os seus, foi. Lá conheceu sua namorada, uma versão mulata da Sigourney Weaver. Após cumprimenta-la ensaiou a comparação quando ela lhe apresentou uma ruiva, era o vestida errado mas era ruiva de cabelos cacheados, mas era o vestido errado, isso não lhe saia da cabeça. Olá tudo bem? Não é esse o vestido. Me chamo Josué. Era de um amarelo desbotado. Vou bem. Como se conheceram? Era decotado nas costas, mais longo que esse. Sou amigo de longa data, escola. Talvez à luz da lua, talvez seja eu fugindo do que eu quero, não à ouvindo para que possa sair daqui o mais rápido possível, ir atrás de Letícia, onde está Letícia? Prometi que a escoltaria pra casa, meu amigo me olhou acabando de contar o motivo que lhe trouxera àquele lugar, ri debochando, olhei pra ruiva, ela me olhava, não era o mesmo vestido mas ela me olhava e isso bastou para que perguntasse seu nome novamente apesar de poder jurar que já o tinha ouvido, ela disse Fernanda, associei com a Montenegro para não esquecer e de fato não esqueci. Percebi que poderia perder mais alguns minutos ali antes que Fernanda conhecesse um pouco da minha personalidade e se afugentasse para perto do jardim, onde talvez ainda pudesse estar a minha ruiva. Tentei a todo custo não ser eu mesmo, falhei miseravelmente, Fernanda gostou, riu, olhou de lado e depois de soslaio pra mim; não fazia ideia do que isso significava. Contei sobre minha faculdade, meu último porre, minha assiduidade em locadoras de filmes, meu destempero em certos sentidos e, acreditem, mesmo assim Fernanda falou mais do que eu, falou sobre suas viagens, seus gostos, seu cheiro preferido, a casa em que viveu no interior, uma porção de namorados que teve, aqueles que largou, aqueles que a largou, aqueles que não via, que era amigo ainda, titubeou em algumas das informações, bebeu, olhou de lado, bebeu, olhou de lado, os olhos de soslaio tornaram-se menos frequentes que os olhares de lado, conta simples, pensei. Josué desculpou-se sobre algo e foi em busca de um copo de cerveja, achou um e bebeu, outro e bebeu, foi ao banheiro, demorou muito mais do que precisava, pensava sobre a vida, sobre o por que daquilo tudo, de estar só em uma festa cheia de gente, de querer algo que nem sabia se queria. A mão apoiava o corpo na parede do banheiro, a outra mão segurava o falo que não urinava já havia alguns segundos, ou minutos, não se sabe ao certo, percebeu isso e dirigiu-se pra fora do banheiro, lavou a mão e não entendeu o por que. Já pensava antes de cada passo, dirigia-se com cautela, sem se machucar, quanto mais se perde a consciência mais ganha em autopiedade. Saindo do banheiro viu Letícia, animou-se com a possibilidade de conversar novamente mas viu que a menina já ia embora, sua mãe lhe ligara oferecendo carona, ela aceitara. Perguntou medrosamente se podia acompanha-la até a porta do recinto, ela assentiu com um sorriso consternado, na porta ele indagou se não queria mesmo que a levasse, ela argumentou que nem ele mesmo conseguiria se levar e quase intimou que ele fosse com ela. Josué a convenceu falando de Fernanda. Ela implorou que ele conseguisse uma carona, um lugar onde encostar. Josué percebeu durante a conversa como gostava de Letícia, como era bom ter alguém que ainda que de uma forma incólume se importasse com ele, depois pensou o mal da humanidade e odiou Letícia mais uma vez. A mãe dela chegou, ela tomou o carro e foi embora mais uma vez. Ele voltou pra dentro, um pouco da alcoolemia passara, fome era o que sentia naquele momento, entre uma bebida e uma empada de palmito Fernanda lhe alcançou, eles iam para a casa do amigo, perguntou se ele não queria ir também, haviam comprado algumas bebidas antes da festa e talvez fosse um bom fim de noite. Josué cogitou fortemente, quase que desesperadamente ir para a casa do amigo na companhia de Fernanda, quis mais do que tudo na vida ir para a casa do amigo. Mas Josué delirava, sabia que o que mais queria na vida era apenas um sonho, um vislumbre passageiro, uma coisa tão corriqueira como a escada que liga o metrô da linha amarela à linha verde. Que anda, leva alguns pra onde querem, outros não. Por um segundo e meio Josué sonhou e sabia que aquilo era errado, sonhar é errado, arrependeu-se e despediu-se de Fernanda. Não trocaram telefones, redes sociais, endereços, sequer sabiam em que ponto cardeal direcionavam as janelas do quarto um do outro. Tinha os olhos de Fernanda, aqueles de soslaio antes daqueles de lado, tinha seus cabelos ruivos, tinha seu vestido que não era aquele que havia visto, mas agora já podia jurar que havia se enganado. Tinha sua voz, isso não bastava, mas quem era Josué pra ir além disso, para Josué desde sempre nada bastava, nada basta e não se pode ter tudo, então é melhor ficar com o efeito alcoólico, este sempre vai embora de manhã. Pediu para que tomasse a caideira quando a dona da casa já fazia plantão na porta para se despedir dos convidados, não conhecia bem a dona da casa, apenas o suficiente pra saber que ela não tinha o hábito de expulsar seus visitantes. Sentou-se na cadeira mais próxima dela e sorriu mostrando o copo de cerveja, ela sorriu de volta, cada gole parecia uma luta eterna, chata, angustiante. Cada gole, contrariando as leis das trocas exotérmicas da física, era mais gelado que o anterior. Calou-se, bebeu o que restava, a festa era só um fiapo do que havia sido, as luzes se acenderam, Josué apertou os olhos. Um ou outro caia no sofá, no chão, alguém corria para acudir outro no banheiro. Quando ia se levantar ouviu saindo do som cansado que jazia ao seu lado uma música de que gostava muito, caiu de novo na cadeira, uma ruiva correu para aumentar o volume, dessa vez ela vestia o vestido certo. Ele olhou, confirmou, era o mesmo vestido, a mesma cor de cabelo ruivo, o rosto era belo, ele o entendia assim, bolinou a chave do carro em seu bolso, olhou pra baixo, pra cima, ela ameaçava passos de dança, seus pés já estavam descalços, seu corpo já entendia que era hora de relaxar, ele esperou uma deixa como se a música não fosse o suficiente, esperou que ela lhe visse, não olhou para que ela o visse, tentou coincidir olhares ao acaso, respirou fundo, de novo olhou pro carpete e um filme passou em sua cabeça, sobre todas as vezes em que mexia nas chaves antes de chegar ao carro. Levantou faltando uma estrofe pra música acabar e foi até o som, ela olhou com um respingo de medo, Josué segurou com a máxima delicadeza possível sua mãe e perguntou seu nome. Rosa. Soltou a mão, tomou o carro e foi pra casa.

Anúncios

Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
Esse post foi publicado em Texto. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s