Os Melhores Discos que Eu Já Ouvi na Vida

Recentemente andava pela rua enquanto ouvia um som. Entre a atenção que eu dispensava às intempéries advindas das ruas de uma megalópole e ao álbum em questão eu percebi que sempre que minha atenção se voltava ao segundo objeto, o tal álbum estava em uma parte incrível, coincidência? Pois bem, nesse mesmo dia eu ouvi o álbum ainda outras duas vezes (sim, eu andei bastante) e percebi que de fato aquele álbum era incrível e genial em sua totalidade. Quando isso acontece é de um prazer idílico, retumbante, achar algo que do início ao fim soe perfeito pra você, seja um filme, um álbum, um casamento ou uma piada, é algo a se comemorar. Ainda inebriado pela descoberta eu fui buscar pela memória quais outros álbuns soavam perfeitos aos meus ouvidos, de cara me dei conta da primeira vez que tive essa sensação, fui além e depois de um dia e meio de reflexão cheguei ao número seis. É bom que se saliente que eu sou quase um iniciante no conhecimento e no aprofundamento musical, isso, não sei exatamente, pode ser um fator que ajude ou atrapalhe essas descobertas por esses álbuns perfeitos mas por mais que o tempo passe e o meu gosto talvez se refine, não acredito que esses seis álbuns vão deixar de figurar nessa lista. São eles em ordem cronológica de audição:

20120701194748!Achtung_Baby – Achtung Baby – U2 (1991)

Em fevereiro de 2006 o U2 trouxe ao Brasil sua Vertigo Tour. Em fevereiro de 2006 eu nunca tinha ouvido falar de U2 e eu também tinha acabado de me formar no ensino médio e não tinha ideia do que ia fazer da vida (mais ou menos como hoje). Naquela época a Speedy (pra quem não lembra ou não sabe, era a banda larga da problemática Companhia Telefonica, responsável pelas linhas telefônicas de São Paulo) fez uma promoção e o prêmio eram ingressos para ver um dos shows da banda que seria no estádio do Morumbi. Eu nunca participo de promoções por que eu nunca ganho (ou o contrário, sei lá), mas essa promoção era diferente, não dependia de sorteio, era um quiz sobre a banda e as dez pessoas que respondessem mais perguntas corretamente em menos tempo levariam um par de ingressos, opa, sendo assim eu posso ganhar, disse uma vozinha na minha cabeça. Desta forma eu fui estudar sobre U2, comecei a ler tudo o que tinha sobre a banda na internet, obviamente bateu a vontade de ouvir alguma coisa. Antes um parênteses, meu pai tem uma grande coleção de lp’s e uma um pouco menor de cd’s. Então eu fui a caça de algo da banda nessas coleções, para minha surpresa encontrei o cd Where The Streets Have no Name e os lp’s Where The Streets Have No Name, Rattle and Hum, October, Zooropa e Achtung Baby. Quem diria, meu pai um fã de U2! Na verdade não, ele mal sabia que tinha esses lp’s em casa, parte da coleção veio de “herança” de parentes e amigos que queriam se livrar das bolachas, pra minha sorte ele aceitava tudo! Lembro inclusive que a primeira vez em que eu ouvi o álbum Where the Streets… eu achei que meu som estivesse quebrado pois a música não começava nunca!

Comecei a ouvir U2 insistentemente e a pesquisar absurdamente sobre a banda. Quando eu pensei em participar da promoção eu pouco me importava se ganharia ou não, no dia do quiz eu estava tremendamente nervoso, os ingressos haviam se esgotado em pouquíssimas horas dias antes, ainda quando eu não era fã da banda, depois, quando eu já amava os quatro rapazes de Dublin, a minha única opção de ver o show in loco seria graças à Speedy.

Eu não ganhei a promoção, dá pra imaginar o quão arrasado eu fiquei, mas como consolo houve o fato de o primeiro show ser transmitido pela Globo, show que eu vi imóvel, do sofá da sala, numa mistura de tristeza e conformação.

Mas eu nem falei sobre o Achtung Baby ainda. Eu ouvi diversas vezes todos os álbuns do U2, inclusive todos na sequência e no mesmo dia. Mas foi em Barcelona, em uma viagem de intercâmbio em 2011, que o álbum me pegou de vez. Eu havia acabado de comprar um iPod Classic e carreguei ele com todos as músicas que eu tinha no computador (uns 80Gb) e diante dessa enormidade de álbuns eu pensei sobre qual eu iria ouvir primeiro no meu recém comprado iPod, escolhi Achtung Baby ao acaso. Ao dar play a guitarra de The Edge rasgou o fone esquerdo, entristecido eu imaginei que esses filhos da puta da Apple deviam colocar qualquer álbum baixado ilegalmente em mono, só pra foder a galera, já ia apertando o stop quando os efeitos se completaram do lado direito, quase fui ao delírio. Era a primeira vez que eu ouvia Achtung Baby no fone de ouvido, contemplando tão minuciosamente sua mixagem. Depois deitei na cama e acabei de ouvir o álbum. Impecável. Ainda nessa viagem passei um fim de semana na Alemanha e durante toda a minha estada lá só ouvi Achtung Baby (Achtung, para quem não sabe, é “cuidado” em alemão), desde então é um dos meus álbuns perfeitos.

pink-floyd-dark-side-of-the-moon-album-cover – The Dark Side of the Moon – Pink Floyd (1973)

Em 2008, no auge dos meus 20 anos, eu ainda nunca tinha ouvido conscientemente uma música do Pink Floyd. E calhou que a primeira vez que eu ouvi uma música da banda foi das mãos de Roger Waters. Em 2008 o baixista trouxe à São Paulo a turnê onde ele executava o álbum do prisma inteiro. Um amigo, temendo não ter outra oportunidade de ver o sr. Waters me convenceu a ir ver o show mesmo eu não conhecendo nada da banda, e eu, aprendendo a lição do U2, decidi comprar o ingresso mesmo não sendo fã, vai que no meio do caminho eu me apaixone pela banda e os ingressos se esgotem, esse risco eu não corro mais, se alguém me noticia um show de uma banda que talvez eu possa curtir, eu garanto o ingresso. Nesse caso não foi amor a primeira vista, o show foi bom, o espetáculo visual foi incrível e por motivos que eu já escrevi nesse blog, o show acabou sendo apenas ok. Chegando em casa fui em busca de algo do Pink Floyd nas coleções do meu pai e, claro, achei algumas preciosidades. Além do Dark Side com prensagem da época também achei Wish You Where Here, The Final Cut, The Delicate Sound of Thunder e A Momentary Lapse or Reason em lp (sendo que The Final Cut e A Momentary Lapse of Reason ele tem dois de cada!) e The Wall, The Division Bell e Pulse em cd.

A primeira vez que eu coloquei a bolacha pra rodar eu comecei do lado b e terminei no a sem perceber. Lembro até hoje da cara do amigo que me convidou pro show quando eu disse isso a ele, parecia que eu tinha destruído o disco. Um disco desses ouvir fora de ordem é uma heresia. E é mesmo, até hoje eu não consigo ouvir uma música específica do Dark Side, ou eu ouço ele inteiro ou não ouço nada.

O próprio Roger Waters disse que The Dark Side of the Moon é um álbum praticamente perfeito, quem sou eu pra discordar.

in_rainbows_official_cover1 – In Rainbows – Radiohead (2007)

Em 2009 um festival chamado Just a Fest conseguiu fazer o que muitos haviam tentado antes mas ninguém conseguiu, trazer o Radiohead pro Brasil, e até o momento ninguém conseguiu traze-los novamente. O festival aconteceu na Chácara do Jóquei, um lugar longe, frio e cheio de lama, o fato é que valia a pena, além do Radiohead eles também trouxeram Kraftwerk e ainda conseguiram reunir o Los Hermanos pra um dos vários shows que eles fizeram depois do fim da banda. Como nos casos anteriores tratava-se de um show que eu conhecia pouco ou quase nada das bandas envolvidas, só que nesse caso eu já conhecia um pouco de Radiohead, na verdade conhecia apenas o The Best of Radiohead, um cd duplo magnífico mas que por questão cronológica não tinha nenhuma música do In Rainbows. Então fui eu, minha então namorada e um amigo pra ver o show (o mesmo que me convenceu a ir ver o Roger Waters no Morumbi). Eu me lembro bem de três coisas, de que o meu amigo estava triste com alguma coisa, minha então namorada emburrada com outra coisa e que eu, ignorando totalmente o humor dos dois, curti um dos melhores shows que tinha visto na vida até então, um primor técnico e tático para parafrasear os comentaristas do mundo da bola. Foi um show magnifico. Já no final, não suportando mais as caras feias dos outros dois, eu me dirigia com eles para os portões antes da última música pra tentar evitar a dor de cabeça do estacionamento e da saída lotados. Foi quando Jonny Greenwood começou os primeiros acordes de Creep, a maior carne de vaca da banda, mas uma música sensacional, larguei os dois e saí correndo em direção ao palco.

Depois em casa fui ouvir com calma o In Rainbows e outras coisas do Radiohead, Ok Computer é sensacional, Rail to Thief é muito bom mas o álbum de 2007 é simplesmente espetacular, tanto o original quanto o lado b lançado posteriormente com a incrivelmente linda Last Flowers. No entanto aqui eu faço uma ressalva. De todas as músicas de todos os álbuns citados nesse post, House of Cards é a única que até hoje não mexeu comigo, acho ela chata, simples assim, mas eu a vejo como um obstáculo a ser superado antes de receber o prêmio que é ouvir a melhor música já gravada pelo Radiohead, Jigsaw Falling Into Place.

Whatever_People_Say_I_Am,_That's_What_I'm_Not – Whetever People Say I’m, That’s What I’m Not – Arctic Monkeys (2006)

Eu tinha uma banda com colegas da faculdade que ensaiava uma vez por semestre. Uma vez ou outra conseguíamos engatar uma sequência de ensaios mas em três anos de existência acredito que nossa média de ensaios deva ter sido essa, um por semestre. A lógica era simples, cada integrante da banda escolhia uma música, ensaiávamos em casa e depois íamos pro estúdio tocar juntos, com o tempo, teoricamente, iriamos acumulando músicas e montaríamos um set pra tocar em algum lugar. Não foi o que aconteceu, nunca tocamos em lugar algum que não tenha sido no estúdio, pra nós mesmos. Num dos ensaios o baterista da banda escolheu The View from the Afternoon, o meu desconhecimento sobre a banda era tão grande que após ele me falar o nome da música eu anotei Devil from the Afternoon no caderno, o que fez com eu demorasse alguns bons minutos pra achar a música na internet. E depois de achar eu senti a pedrada que era, ouvi a música umas cinquenta vezes seguidas pra tirar o baixo dela até que finalmente consegui. Eu, a essa altura já um fã incondicional de Pink Floyd, tenho o hábito de sempre ouvir álbuns inteiros, nem que apenas uma vez. Não curto pescar músicas aleatórias que ouvi na rádio ou que eu gostei em um show. Então baixei o álbum em questão e ouvi direto uma cinquenta vezes (sempre pulando a primeira música, claro), sem exagero, foram vários dias e até hoje eu me pego fascinado pelo álbum e o escutando repetidamente (The View from Afternoon já ficou audível de novo pra mim!), dessa lista inteira esse é provavelmente o álbum que eu mais ouvi. Pelo menos pra uma coisa a minha banda serviu.

beatles-abbey-road-album – Abbey Road – The Beatles (1969)

O álbum mais antigo da lista foi o penúltimo a ganhar o meu coração. Obviamente eu conhecia Beatles há algum tempo, não muito pra falar a verdade, em meados de 2009 eu baixei a discografia completa da banda e por dever moral e cívico me pus a ouvir tudo. Mas a maioria das coisas foi meio automática. Por isso o arrebatamento que o álbum me causou só veio em 2011 quando eu visitei Abbey Road. No momento em que desci do metrô na estação St. John’s Wood eu comecei a ouvir o álbum. Confesso que depois que saí de Londres não ouvi o álbum muitas vezes mais (nessa época eu também estava me apaixonando por Achtung Baby) mas uma coisa mexeu comigo profundamente, a passagem de I Want You para Here Comes the Sun. Eu já tinha ouvido algo parecido na coletânea Love quando I Want You se transforma em Help! e tinha achado sensacional mas a quebra pra Here Comes the Sun é uma daquelas coisas que fazem o peão perder a força nas pernas. Depois ouvi mais e mais e mais e hoje eu não consigo achar nada nesse álbum que não esteja exatamente onde deveria estar.

stone-roses-second – Second Coming – The Stone Roses (1994)

Enfim chegamos a 2014, mais precisamente a ontem, 2 de abril. Tudo o que eu conhecia do Stone Roses era o consagradíssimo primeiro álbum da banda e sinceramente eu não tinha gostado. Achei estranhíssimo. A voz do Ian Brown me soava como música japonesa, sei lá. E então o amigo que havia me apresentado a banda (que não é aquele amigo dos shows do Roger Waters e do Radiohead) me sugeriu ouvir o segundo álbum, de acordo com ele, “mais rock’n roll”. Baixei-o e aguardei. Não por que eu precisava aguardar mas por que procrastinação é uma das minhas características básicas. E se passaram anos até que eu finalmente me dispusesse a ouvir o álbum de 1994. De cara Breaking Into Heaven se tornou uma das melhores músicas que eu já tinha ouvido na vida. E depois eu percebi que as guitarras de John Squire eram de uma complexidade absurda e até a voz do Ian ficou soberba, sem contar as linhas de baixo e de bateria que… AH! É um absurdo, o álbum inteiro é um absurdo, até a estranhíssima e lindíssima The Foz é incrível através dos seus seis longos minutos.

Resta agora, à luz do Second Coming, revisitar o primeiro álbum e descobrir de uma vez por todas se o problema dele é comigo ou se o meu problema é com ele.


Dentre a seleção acima não figuram diversas das melhores bandas que já pisaram nesse planeta azul e eu fiquei imaginando o porquê. Acontece que muito do poder dessas bandas está no som ao vivo que eles fazem ou em coisas específicas de músicas específicas e não na construção de um álbum inteiro em si, algo mais pautado na engenharia e não na visceralidade.

Logo, o único critério que eu defino pra essa lista é o de que eu quero que esses álbuns figurem nessa lista com esse nome. Espero (e tenho certeza) que ela não irá parar por aí. Fico apenas imaginando quando que eu terei de novo aquele estalo que diz, você está diante uma obra prima.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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