Hoje uma lágrima escorreu no rosto de uma menina.

Hoje uma lágrima escorreu no rosto de uma menina. Uma lágrima apenas. No olho direito. Ela estava dentro do ônibus municipal, usava jeans e blusinha vermelha, tinha cabelos pretos e lisos, olhos castanhos, algumas sardas. Usava apenas um fone de ouvido na orelha direita… Ela não ouvia música, ela aguardava uma ligação. Antes disso um rapaz segurou seu braço, tá bom, não era um rapaz, era um senhor. Seu pai. Ele queria saber o que ela queria de fato fazer com sua vida.

Quisera assim que os pais sempre queiram saber o que os filhos farão da vida. Ela não sabia, problema de quem? Dela, que fosse, de ninguém que realmente importasse. Fabiana seguiu… podemos chamá-la Fabiana? Tá bom, Gabriela enfim seguiu em direção à casa de seu amigo Adalton. Adalton buscou consolo, aconselhou, debateu, falou quase o mesmo tanto que ela, ele não era lacônico, não, de forma alguma, Adalton falou bastante, lá pelas tantas Gabriela confessou, amava alguém, gostava de alguém, Adalton deu de ombros, Gabriela queria sei lá o que fosse da vida, talvez se casar, talvez fazer faculdade, talvez se mudar, morar em São José, em Extrema, Itapecerica da Serra, Araçatuba, sofrer de amor pra sempre como naquele filme do Coutinho, ir embora pra sempre, ir pra Europa, ficar, lutar, chorar um bocado de vezes, muitas mesmo, aprender que nada disso importa, chorar mais por causa disso, ir pra esquerda, ir pra direita, centro, classe média, classe baixa, lutar por causas, no fim de tudo amar de novo. Será possível? Não é uma questão de possibilidades, aprendeu Gabriela, é uma questão de quando.

Gabriela amou de novo e agora abria seu coração para… qual era mesmo o nome dele? Airton. Airton suspirou, percebeu e discutiu. Gabriela… Airton abraçou-a, não faz assim, o mundo é isso mesmo, a vida é boa, é um presente e devemos aceitá-lo, o problema é que a maioria da gente não o desembrulha antes de aproveitá-lo, Gabriela assentiu, abraçou Airton mais uma vez, estavam juntos. Airton se afastou, contou uma piada, maneou a cabeça, pediu por algo, não com palavras, apenas pediu, Gabriela franziu o cenho, que foi? Gabriela, olhe nos meus olhos, você gosta de mim, não é? Gabriela olhou pros lados, pensou por um milésimo de segundo, que vale mais? O ego dele ou a minha verdade? Valia mais a verdade dela, o ego de Airton foi suprimido, não era ele o alvo do amor de Gabriela.

Gabriela, naquela mesmíssima tarde, contou à Airton, encontrou César. César havia perguntado a ela em tom categórico sobre o que ela queria? Gabriela não respondeu, nem deu de ombros, nem suspirou, nem pensou, apenas não respondeu, sentiu que aquela não era a hora. Perguntou se podia sentar, se podia acender um cigarro, se podia beber um gole, se podia brigar com alguém, não, nada disso seria possível. Gabriela percebeu, não perguntou nada, só sentou, César sentou do seu lado, segurou sua mão, olhou em seus olhos e a demitiu. Gabriela não tinha emprego, amava alguém e agora acabara de descobrir que tinha um amigo confuso.

Airton mal pensou e já disparou, Gabriela estava errada, seja lá pelo que fosse o motivo da demissão, Gabriela estava errada porquê ser demitido é uma falha de caráter, pensou Airton, Gabriela resignada perguntou se havia cerveja na casa, diante da negativa apressou-se em se dirigir à um bar, Airton, como que se sentindo convidado foi atrás, Gabriela olhou de soslaio e fez que tanto faz, vamo-nos. O bar era todo amarelo e lindo, impecável, balcão de madeira em perfeito estado, limpo, bancos de metal perfeitamente enfileirados, mesas de plástico secas. O bar não estava aberto ainda, Gabriela teve que usar de um pouco de lábia e um tanto de charme para que os deixassem entrar. Sentaram e conversaram.

Gabriela, pensava Airton, era uma menina forte, bonita, resolvida, tristonha e sagaz. Gabriela, pensava Gabriela, era uma menina tristonha e sagaz. Gabriela então, logo de cara, sugeriu à Airton um shot de tequila, algo pra começar a conversa, Airton, que tinha tido sua vontade feita pela última vez nos idos de 1999 aceitou. Outro shot? Claro. Então, disse Gabriela enquanto suspirava, amo alguém, amo mesmo, de verdade, parece até clichê, mas é o que é mesmo, então foda-se. Gabriela o conheceu no verão de 2012, em São Paulo, capital. Estavam os dois comprando bugigangas na feirinha de domingo do Center 3. Ele escolheu uma camiseta específica e Gabriela riu, depois disso um convite para uma cerveja e doze cervejas depois ele a beijou. Só isso, só um beijo, um dos longos, mas só um beijo, andar pela calçada de mãos dadas e chegar ao metrô que já estava aberto. Ela se foi, ele ficou. Facebook, sms e se encontraram de novo, claro. Foram comer uma coxinha em uma padaria na zona norte, de esquina, simpática, a melhor coxinha que aquelas papilas gustativas já haviam saboreado, ideia dele. Onde se vendia coxinha não tinha cerveja e onde se vendia cerveja não tinha coxinha e por isso a noite esticou pra um bar, que depois de algum gole virou dois bares, cama, sexo. E nesse momento Gabriela, sorumbática, disse que queria vê-lo de novo. Airton de sobressalto interpelou, que como assim, que aquela história não podia acabar daquele jeito, coxinha e sexo? Gabriela arregalou os olhos, não era coxinha e sexo, era a melhor coxinha e o melhor sexo de sua vida. Airton desdenhou perguntando como ela poderia saber daquilo, Gabriela retrucou, lembra de Breaking Into Heaven do Stone Roses; claro, assentiu Airton, é a melhor música já feita; era melhor que isso, categorizou Gabriela. A coxinha ou o sexo, perguntou um boquiaberto Airton. O sexo, disse Gabriela.

Airton encostou suas costas no encosto da cadeira, roubou um petisco do prato de porções que haviam pedido e mastigou de boca aberta. Airton não era bom de cama, dava prazer às mulheres, claro, mas não na intensidade que elas queriam. Ver uma mulher realizada na sua frente não estava nos seus planos para o fim de tarde, começo de noite, e isso lhe fez mal. Mas Airton aceitou e pediu detalhes. Gabriela disse algo sobre o uso da língua, a força dos dedos, a importância dos genitais. Airton só não anotou em um bloco de papel por que não o tinha à mão e principalmente por que isso não iria parecer adequado naquele momento mas fez um esforço hercúleo para decorar. Ainda tentando lembrar dos detalhes sem deixar de se importar com a amiga ali na frente, perguntou por que que fazia mais de um ano que eles não se viam. Gabriela pediu mais um shot. Após consumir o drinque mexicano ela segurou a mão de Airton; é o seguinte, prosseguiu com esforço ao pronunciar as palavras, o meu pai… era sempre a mesma coisa… se quiséssemos ficar juntos por mais que algumas horas além da madrugada eu tinha que arrumar uma forma de oferecer uma verdade alternativa ao meu pai, completou Gabriela enquanto revirava os olhos pra cima, buscando um respingo de razão naquela afirmação.

E foi assim, indagou Airton, que tudo terminou? Quem me dera, soluçou Gabriela. Em uma noite de frio meu pai cismou que ia me buscar onde eu estava, acontece que eu não estava onde eu deveria estar, eu estava tendo uma daquelas noites maravilhosas de sexo, meu pai achava que eu dormia na casa da Mariana. Ele foi lá, não me achou, me ligou, eu abri o jogo, ele também. Eu havia mentido por que eu sabia que não podia sair de casa dizendo que estava indo ter um orgasmo, ele foi me buscar por que assistiu no Fantástico que havia um assassino em série no bairro onde eu estava que invadia casas e assassinava as pessoas com facadas no pescoço. Nesse momento Airton riu, não acreditou em duas coisas, primeiro que pudesse haver um serial killers no Brasil, segundo que alguém poderia ir buscar a filha só por que o Fantástico noticiou algo. Pois bem, ambas as coisas aconteceram. Mas o fato é que Gabriela estava segura, ela não estava no Brás, lar do assassino e de Mariana, ela estava transando e atendeu o telefone ainda levemente ofegante. O pai de Gabriela a buscou, debateu, brigou com seu affair e chorou pelo hímen perdido. Gabriela só não acendeu um cigarro por que não o tinha. Depois disso foi uma desilusão atrás de outra. Gabriela, injuriada, aquietou-se, sequer foi trabalhar, perdeu o emprego, perdeu o moçoilo e agora perdia a sobriedade. E o que fazer? Perguntou ela em um tom retórico que Airton não entendeu. Airton, diante da pergunta que não exigia resposta, poderia ter pedido outra cerveja, comido mais um petisco do prato, ido ao banheiro, cantado a garçonete, bocejado, tirado o falo pra fora e martelado a mesa.

Não. Ele apenas perguntou, mas por que você fez isso? (sic). Gabriela, que já estava bem bêbada, tentou interpretar a pergunta e após uns dois segundo que pareceram horas na cabeça dela, e ver que era inútil tentar interpretar a pergunta, perguntou, isso o que? Sabe, mentir, fugir, não ir trabalhar… Era esse todo o argumento de Airton, não havia mais nada. Gabriela, ainda cambaleante, se levantou, olhou as horas no celular, foi até o banheiro, antes de voltar pra mesa mandou uma mensagem para Pedro (aliás, acho que eu não havia dito ainda, o deus do sexo que havia dado tanto prazer à Gabriela se chamava Pedro), mais uma tentativa, quem sabe essa funcionasse, parou no caixa, pagou metade da conta, voltou à mesa, deu um beijo em Airton, lhe sorriu condescendente e saiu pra rua com uma garrafinha de água na mão. Airton não foi atrás porque nem sua cerveja nem a porção haviam acabado mas a chamou umas duas vezes.

Ainda eram oito horas da noite, Gabriela pegou o ônibus, tirou o celular e naquele dia não decidiu entre The Black Keys e Radio Moscow, só colocou o fone no ouvido e esperou que o telefone vibrasse enquanto uma lágrima rolava em seu rosto. O cobrador, o motorista, a moça do lado, o passageiro do ônibus que observava com interesse sua beleza, os transeuntes na rua, o mundo inteiro só vê a lágrima, o fone de ouvido e a blusinha vermelha, todo o resto é Gabriela quem sente.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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