O Futebol imita a Vida

Recentemente um amigo pouco entendido das peripécias da bola me questionou sobre a autocracia praticada pelo juiz dentro das quatro linhas no futebol, dizia ele em tom de escárnio: “por que não submeter cada apito do juiz à defesa, acusação e depois votação pública?” Não tinha como ser mais profético. É verdade que o futebol, assim como a grande maioria dos esportes, é controlado por um conjunto de senhores que aplicam arbitrariamente (claro, por isso se chamam árbitros) regras previamente definidas por todos os envolvidos, no caso do futebol, hoje em dia, são seis os tais árbitros presentes e no futebol, como na maioria dos esportes, há um juiz principal que toma a decisão final.

Mauro Cezar Pereira, jornalista dos canais ESPN e blogueiro do site da emissora publicou ontem em seu blog uma espécie de manifesto, ou uma sugestão pelo fim dos tribunais no futebol. Apesar do meu amigo lá do início do texto clamar por um futebol menos autoritário, ele não sabia, e eu não tive a perspicácia necessário para alertá-lo de que na verdade o futebol brasileiro está entre os mais democráticos do mundo, cada cartão vermelho, cada suspenção, cada anotação da súmula e cada jogada pode ser contestada em tribunal e até ser revogada a decisão do árbitro da partida, o que vimos ontem no julgamento da Portuguesa de Desportos, então, foi a suma demonstração da democracia no futebol brasileiro, pontos conquistados com bola rolando (onde impera a autocracia do juiz) foram revogados no tribunal (onde uma justiça cega interpreta a lei), caso contrário, ou seja, caso a tese do Mauro Cezar fosse a práxis do futebol o erro não seria corrigido. No entanto, claro, o absurdo da minha afirmação é evidente e o grande ponto da proposta do jornalista da ESPN não é que o futebol deixe de ser um espaço onde os erros possam ser corrigidos, mas sim um espaço em que se minimize os erros, que prevaleça o resultado do campo, a cosmologia do futebol não necessita da divindade dos tribunais, assim aqueles poucos erros que ainda fossem cometidos sriam corrigidos por uma comissão destinada a isso, sem julgamento. Convenhamos, em pleno século XXI, onde qualquer celular pré-pago consegue acessar a internet é inadmissível que a Lusa cometa o erro de escalar um jogador em situação irregular, mas o erro não é só da Portuguesa, o erro é de quem não protegeu o campeonato, o erro é também da CBF e dos juízes que não se precaveram, o problema é ainda hoje não existir um app de iOS e Andróide onde as equipes escrevam os nomes dos relacionados e ele avise instantaneamente que fulano de tal não pode jogar. O erro é nosso que pagamos ingressos, vamos ao estádio, assinamos pay-per-view, vibramos os gols e choramos as derrotas pra depois ver o campeonato ser decidido no tapetão e ainda assim não cobramos esse tipo de modernização nesse esporte que parece ser o único do mundo que insiste em não se modernizar (exceto nos produtos vendáveis como camisas, bolas e chuteiras que a cada dia estão mais modernos e mais caros).

No entanto o futebol é dinâmico, é rápido, é imprevisível, modernizá-lo poderia comprometer essas características, mas elas são tão importantes assim? Segundo José Miguel Wisnik, professor de literatura da USP e que publicou em 2008 o livro Veneno Remédio, o Futebol e o Brasil, o esporte bretão é tão querido no mundo inteiro graças a sua semelhança com a vida. Na vida, como no futebol, o pragmatismo não é visto com bons olhos, a incerteza rege grande parte das nossas ações, as coisas acontecem muito rapidamente, na vida como no futebol podemos nos preparar, montar uma festa incrível, passar noventa minutos correndo atrás de algo e mesmo assim terminar tudo no zero a zero. O futebol é o esporte mais popular do mundo por que no futebol nem sempre o pior time perde e isso nos dá esperança. Acabar com a fluidez do futebol, com sua dinâmica, com o papel do acaso é tirar o que tem de melhor no futebol, pior, é transforma-lo em futebol americano! Não me entendam mal, eu quero sim um futebol mais moderno, com menos erros, com mais vitórias na bola pois nem sempre o melhor time vai jogar melhor naquele dia específico e isso torna o espetáculo idílico. Mas também quero um futebol democrático, com espaço para deliberações quando elas forem necessárias. Chegaríamos a um impasse se não fosse pelo artigo do professor Lincoln Secco, que leciona História Contemporânea na USP, intitulado A Democracia Racionada. No artigo o professor apresenta o conceito do título, e aqui eu não vejo forma melhor de explicá-lo que não usando as palavras do próprio professor: “[A democracia racionada é] Uma ideia que merecia se tornar um conceito explicativo dos regimes brasileiros que não são exatamente uma ditadura aberta, mas também não se tornam democráticos. Assim, podemos definir a democracia racionada como uma forma semilegal em que a violência contra os pobres e os opositores se combina com ações autoritárias dentro da legalidade, e os escassos direitos são distribuídos a conta-gotas para os setores mais moderados da oposição.” Secco fala do futuro politico do país, trata de um conceito originário do líder comunista Carlos Marighella, que visava definir o conturbado período democrático que o Brasil viveu antes do golpe de 1964 e que segundo o autor passamos a viver partir da abertura política em 1984. No entanto o futebol se assemelha com a vida em diversos meandros e não nos retemos apenas às questões subjetivas, se já ficou claro a partir dos estudos de Chris Anderson e David Sally em Os Números do Jogo que a economia é um fator crucial para definir os melhores times, também já é notório que a politica predomina no extracampo e em alguns casos até no campo, caso contrário o Corinthians não estaria em vias de terminar seu estádio e outros times não se valeriam de “Arenas” patrocinadas com dinheiro privado mas facilitadas e respaldadas pelo governo federal. Por fim, percebemos que o futebol se vale de recursos jurídicos notoriamente desiguais, assimétricos e desproporcionais, como citou o jornalista Juca Kfouri em seu blog no portal Uol, “o julgamento equivale a sentenciar quem rouba pão à prisão perpétua”, os times pequenos sofrem para alcançar seus objetivos, sejam eles quais for, ser campeões ou permanecerem na primeira divisão, sofrem a muito no campo, não seria diferente fora dele. E de que vale rebaixar a Lusa, a quem interessa? À Unimed? Ao Fred? Ao mesmo conglomerado KGB-Máfia-CIA-Fidel Castro-anticastristas-Illuminati-Maçonaria-Richard Nixon-complexo industrial militar que matou John F. Kennedy? Ou ao capital, que tem mais a lucrar com o Fluminense na série A do que com a Lusa? Não sei. Não digo que foi tudo armado, as ações autoritárias se travestem da legalidade. Digo o seguinte, Secco aponta no fim de seu artigo que estamos diante de um impasse, dentre a crise da representatividade e as manifestações de julho a questão é sobre quão mais a democracia racionada se sustentará, a história mostra que ela é instável e o próximo passo pode ser dado para qualquer um dos dois lados, em direção à ampliação dos direitos civis ou em direção ao recrudescimento. O caso da Lusa é sintomático, ele ocorre na semana em que dois shoppings paulistas sofreram “arrastões”, jovens, pobres e na sua maioria negros foram ao shopping, em grupo, ocuparam um espaço destinado à elite, a elite reagiu lançando mão do seu braço armado, a polícia e a segurança privada, que tratou de expulsá-los. Uma equipe de futebol, pequena, pobre, ocupava um espaço onde, no curto período de um ano deixaria de ser ocupado por dois times da elite brasileira.

O texto de Mauro Cezar Pereira pode ser lido em http://www.espn.com.br/post/376781_pelo-fim-do-tribunal-no-futebol-brasileiro
O livro de José Miguel Wisnik é o Veneno Remédio, O Futebol e o Brasil, Companhia das Letras.
O artigo de Lincoln Secco pode ser lido na revista Le Monde Diplomatique Brasil, nº77.
O livro de Chris Anderson e David Sally é o Os Números do Jogo, Paralela.
O texto de Juca Kfouri pode ser lido em http://blogdojuca.uol.com.br/2013/12/decisao-tecnica-derruba-a-lusa/
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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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