Texto 15 de 2012

Já era tarde da noite quando eu recebi o fatídico e-mail que dizia que não teríamos aula no dia seguinte, o professor Antônio Flávio Pierucci acabara de falecer. Faltavam duas semanas para o fim das aulas, o que pra mim significava que faltavam duas semanas para o fim da minha graduação. De certa forma a notícia havia sido boa do ponto de vista que eu teria mais tempo para desenvolver meus trabalhos finais das minhas últimas cinco matérias, que juntas pareciam cobrar todos os esforços que eu não havia desprendidos nos cinco anos anteriores e que me consumiam profundamente e tiravam qualquer possibilidade de aproveitar o inicio do inverno e suas nuances. No entanto a notícia não foi nem um pouco boa pra mim, nem um pouco animadora e ainda conseguia me dar alguma lição sobre essa complexa teia de conexões que costumou-se chamar existência.

O professor Pierucci lecionava e era chefe do departamento de sociologia do curso de ciências sociais da USP, sua especialidade era Max Weber. O quarto semestre de sociologia era inteiro dedicado a este clássico, o que culminava no nosso encontro com Pierucci já no segundo ano, aliás, não no nosso encontro, eu, por me chamar Pedro, residia no final da lista de chamada, e portanto estava a cargo de outra professora me ensinar a ética protestante que estava por trás do espírito capitalista. Na minha primeira tentativa de fazer a matéria eu fracassei miseravelmente, não atingi a nota mínima e seria obrigado no ano seguinte a refazê-la. E a refiz, de novo com a mesma professora, e novamente não passei, mas, nesse caso tenho uma desculpa mais plausível, a segunda vez em que cursei essa matéria foi no segundo semestre de 2009, ano em que vivia a minha maior decepção amorosa, portanto mal ia nas aulas, a bem da verdade, nesse semestre eu consegui apenas quatro créditos, ou seja, fui aprovado em apenas uma matéria quando o normal, ou aceitável, seriam umas quatro. No semestre seguinte eu já estava cansado de ciências políticas. Graças à minha aversão aos seminários e a insistência do departamento de antropologia de lecionar através deles eu baseei meu curso nas matérias de política, já que não podia fazer matérias de sociologia enquanto não fosse aprovado na famigerada sociologia IV, obrigatória para as demais. Logo, o segundo semestre de 2010 acabou por ser decisivo no meu futuro dentro do curso de ciências sociais, então decidi assistir às aulas sobre Weber com esse outro professor, o Pierucci. Eu não podia assistir todas as suas aulas pois precisava marcar presença na minha sala de origem, no entanto, o pouco que vi das aulas do Pierucci foi cabal pra renovar o meu já tão desgastado interesse pela faculdade. Me lembro até hoje de ele utilizar um contra-exemplo totalmente incomum para o conceito de ação social, ao invés do choque entre ciclistas ou do abrir coletivo de guarda-chuvas num ponto de ônibus, ele usou a metáfora das melancias soltas na carroça de um caminhão, que pelo balancear da estrada acabavam por se chocar. Um contra-exemplo banal, besta, mas que demonstra como a aula se seguiu, fugindo aos padrões aos quais eu estava acostumado não só em sociologia mas em todas as disciplinas. O grande livro de Weber, o qual estudamos inteiramente durante o tal semestre se chama A Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo, no Brasil existem diversas traduções para o nosso idioma, no entanto apenas uma é confiável e apenas ela deveria ser lida para as aulas. Eu, como um consumidor inveterado de livros e como, nesse caso, a maioria dos alunos da sala, comprei a tal edição, trata-se de uma de capa verde, famosa, revisada por Antônio Flávio Pierucci, aquele que havia me ajudado a repensar a minha posição nas ciências sociais.

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Alem do prazer orgástico com a compra de livros, tenho um fetiche enorme por aqueles autografados, algo que faz deles únicos, tocados pelo autor em uma forma toda particular. Mais tarde conversei com um colega mais inserido no departamento de sociologia sobre se seria de bom tom pedir para que o Pierucci autografasse minha edição, ele disse que, bem, o Pierucci é meio de lua, que talvez ele pudesse dizer que iria autografar sim, mas não naquela hora, talvez quando estivesse de melhor humor, resolvi esperar. Um mês antes de terminar minha graduação, em meados de maio de 2012 eu vi o Pierucci na estação Butantã da linha amarela do metrô, a mais próxima da USP, ele se dirigia ao ônibus que o levaria à FFLCH, o mesmo que eu tomei. Andava devagar, com dificuldades, tinha sua magreza ainda mais acentuada e seus olhos ainda mais fundos, naquele momento me lembrei do acordo que tinha feito comigo mesmo dois anos antes, que na minha última semana de graduação, mais precisamente no meu ultimo dia de aula eu o procuraria e finalmente iria pedir seu autógrafo.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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Uma resposta para Texto 15 de 2012

  1. fernandestali disse:

    Não deixemos as oportunidades da vida passarem…

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