O Roteiro

Três horas de trânsito, duas, DUAS, garrafas de cerveja, não dá nem pra deixar a mãe brava. Volta pra casa esperando pra tomar um banho, colocar o pijama e ir se livrar desse dia terrível. Não tem água. São dez da noite e não tem água, como podem ser dez da noite e não ter água em um condomínio em pleno século vinte e um, porra? Não sei, deve ser por que o Russomano é líder das pesquisas. Já que não tem água eu vou escrever o roteiro de duas páginas (dois minutos!) pra aula de criação de roteiro, mas claro, antes disso um ou dois episódios de How I Met Your Mother. Findado os dois episódios nada de água, vou ter mesmo que começar a escrever o roteiro de algo que eu não tenho a menor ideia do que fazer. Começo. Paro. Penso, invasão da reitoria? Gol de placa do Pelé? Assalto de um transeunte… Assalto de um transeunte durante a invasão da reitoria. E o gol do Pelé? E a placa? Desisto, só tem ideias ridículas aí. Apago tudo, começo de novo, flores, a vida de uma flor em dois minutos. A TV com o som alto de “Dois Homens e Meio” invade o meu quarto acabando com qualquer centelha de inspiração. O computador pára de funcionar, os seriados não tem mais tanta graça, o café já tem mais que meia hora de vida, eu já jantei duas vezes. As torneiras continuam secas. São duas da manhã e nenhum sinal de que eu vá conseguir dormir sujo e com os dentes por escovar. Desespero, horror, sono, angústia. Preguiça. Já sei, dois minutos de um gatinho preto e branco ronronando, no final ele tenta pular da mesa para o sofá e cai no chão, a mesa havia sido encerada. Acho que essa ideia não é muito original. Mas também esse roteiro não vai virar filme, no máximo um “exercício”. Eu preciso arrumar a mala, amanhã vou à Belo Horizonte ver um jogo do qual nem sequer tenho ingressos, talvez se os conseguir eu conte essa história. Mas não vai dar tempo de escrever. Posso contar a história do gol, menos, claro, se o jogo for zero a zero. Então poderia contar a história de uma expulsão, exceto se não houver expulsão. Posso contar qualquer coisa interessante do jogo, e o jogo, claro, pode não ter nada de interessante. Posso contar a história de como consegui, ou não, o ingresso. Já tive essa ideia quatro linhas pra cima, talvez a use, vamos ver, vou verificar se tem água, se tiver voltado eu conto essa história, se não eu vou fazer um monólogo silencioso em preto e branco de dois minutos, eu, uma mesa, talvez um gato, um monólogo baseado em expressões, minhas e do gato, talvez uma barba de pelos hirsutos, óculos, fraque, cartola, ódio transbordando dos olhos, contrastando com a imagem singela do gatinho, talvez até um felinocídio… ah, a água voltou!

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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