Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios

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Dirigido por Beto Brant. Com Camila Pitanga, Gustavo Machado, Gero Camilo, Zé Carlos Machado, Antônio Pitanga.

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios já merecia por si só uma honraria especial pelo excelente título, que é também e antes de mais nada o título do livro de Marçal Aquino que inspirou o filme. E é dos lábios de Lavínia (Pitanga) que serão a maioria das fotos de Cauby, (Gustavo Machado), um jovem repórter fotográfico com quem a moça tem um caso, mesmo sendo casada com Ernani (Zé Carlos Machado). O que impressiona, no entanto é o fato de que a construção do filme faz com que tanto por Cauby quanto por Ernani ser fácil criarmos uma empatia durante o filme, o que não ocorre com a personagem de Camila Pitanga, alias, personagens. Durante a trama vemos a atriz se desdobrar em no mínimo três personalidades diferentes sem no entanto perder a essência da Lavínia original, o que nos faz tirar o chapéu para a brilhante atuação desta atriz que aparenta estar no seu melhor. A característica marcante pra designar as diversas personalidades da Lavínia é o seu cabelo, como o filme tem elipses em fade-in fade-outfica difícil entender até que ponto vai a linearidade dos planos-sequência dentro da trama, ainda que fique bem claro que a trama começa no presente, vai ao passado e depois retorna, dentro desses cortes fica difícil precisar o tanto de tempo que se passa entre as elipses, o que nos causa uma certa confusão, que é exatamente a mesma confusão que vão sentir os personagens, só que no caso deles em relação aos seus sentimentos, a única dica concreta sobre a passagem do tempo é a forma como os personagens se apresentam emocionalmente e fisicamente, no caso de Camila, o cabelo é parte crucial da determinação da nossa interpretação da sua personagem.

Cauby ganha o publico graças a sua devoção ao amor, ele parece ser o único na trama que acredita no amor romântico, aquele que impulsiona historias de finais felizes. Ele parece ser o único que luta pelo sentimento, enquanto que os outros apenas se deixam levar pelas ocasiões. Viktor (Camilo), jornalista amigo de Cauby, parece explicitar isso quando diz com todas as letras que o amor não existe, alias, é dele que vem a maioria das pistas do filme e é dele que vem as frases de maior impacto. Em uma das cenas em que os dois bebem e fumam podemos perceber que Viktor usa o que parece ser uma guia, espécie de amuleto do candomblé, que é uma dica visual do grande impasse vivido entre Cauby e Ernani, enquanto o primeiro parece flertar com as religiões africanas o segundo é um missionário católico. Podemos perceber que esse fator vai influir na relação de Cauby e Lavínia na primeira cena dos dois no filme, quando eles entram na casa dele para uma sessão de fotos um raio de sol refletido na lente da câmera corta a tela separando os dois, mais tarde aparece ela, esposa de um missionário católico, nua, se pintando junto com Cauby, numa cena de transe e profunda beleza.

A empatia por Ernani também começa a ser criada logo em sua primeira cena, não sabemos ainda que se trata do marido de Lavínia mas já gostamos dele, primeiro pelo seu discurso que além de religioso é também ambientalista, em defesa da população local e indígena dessa cidade que não sabemos o nome, exceto por uma cena do filme onde Cauby cobre Lavínia com uma blusa do Remo, time de futebol do Pará, não há dicas de onde se passa a trama. Durante seu discurso no que parece ser um culto religioso, a câmera faz uma panorâmica para a esquerda, deixando sempre o personagem do lado direito da câmera, o lado mais “agradável” e aproveita pra mostrar a atenção ininterrupta que todos os ouvintes dispensam a ele, inclusive Lavínia, que esta na plateia. No segundo ato, que se passa no Rio de Janeiro, é que se intensifica a criação da empatia por Ernani, graças a suas roupas em tons azulados e confortáveis e ao seu discurso articulado e humanista. É nesse momento que ele conhece Lavínia, onde eles se identificam e entendemos o por que de eles estarem onde estavam no começo do filmes, mas tal sentimento a favor do marido só é confirmado em uma cena primorosa de revelação, muito bem dirigida e brilhantemente montada que nos faz até passar a “torcer” pelo marido da moça, e que deixou este que vos escreve em verdadeiro êxtase na sala de cinema.

A ideia é que o filme tem uma unidade muito forte, as locações em Santarém no Pará são lindíssimas e o roteiro é brilhantemente escrito, tanto que percebemos a história se desenvolver muito bem graças ao grande número de pistas escondidas nos diálogos e falas longas e nas cenas. Um bom filme nunca desperdiça uma cena, e apesar de acharmos, em alguns momentos, que esse filme tem cenas de mais, é lá no final que vamos ver que nada é a toa, o filme poderia acabar trinta segundos antes do esperado e mesmo assim já nos passaria a ideia que o diretor quis passar ao final, no entanto Brant ainda nos brinda com uma das mais lindas ultimas cenas do cinema brasileiro.

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Este filme é uma excelente dica pra comemorar o Dia do Cinema Brasileiro que é celebrado hoje, 19 de junho, e ainda pode ser visto, pelo menos até 22/06, no Espaço Itaú de Cinema.
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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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