Deus da Carnificina

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Dirigido por Roman Polanski. Com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly, Elvis Polanski, Eliot Berger, Joseph Rezwin e Tanya Lopert.

A primeira cena do longa de Polanski é margeada por duas árvores de troncos robustos, uma de frente pra outra, encarando-se, no meio ocorre a ação que resulta na discussão que será, nada mais nada menos, que o filme inteiro. Ethan (Berger) é agredido no rosto com um galho por Zachary (Elvis Polanski). As duas árvores ilustram o que veremos no filme inteiro, duas famílias, só que de forma não tão pacífica.

Polanski reúne em uma sala de um apartamento de classe média de Nova Iorque quatro dos maiores atores da atualidade, assim como o bolo degustado por Alan (Waltz) e Nancy (Winslet), pais de Zachary, convidados de Penélope (Foster) e Michael (Reilly), pais de Ethan, o grande momento do filme se dá quando percebemos que ele não sairá daquela sala e assim passamos a observar a proporção utilizada de cada ator, observar a receita do filme.

Nesse momento convido o leitor para que, quando assistir o filme ou já tendo assistido o filme pare por um momento e faça o exercício de tentar descobrir quem de fato é o protagonista da trama, lembrando que só pode haver um protagonista. Se já viu a película compare agora comigo. Em minha opinião trata-se de Penelope (Foster), é ela quem através de sua posição rígida influi nas ações dos outros personagens que transitam entre diversas opiniões diferentes durante a trama. Penélope é a mãe de Ethan, o agredido, e como tal mantém a ideia fixa de que Zachary é o único culpado e deveria vir lhe pedir desculpas. Sempre moralista e recatada, como podemos perceber inclusive pela composição de seu figurino, uma roupa em tons escuros, sem estampas e com o cabelo religiosamente seguro com uma presilha também escura, é ela quem comanda a dinâmica que leva as discussões ao extremo, ainda que seja Michael, seu marido, quem contemporize a situação, é Penélope que sempre toca nas feridas e assim desenvolve os diálogos mais calorosos do filme.

Alan traz consigo a característica mais marcante de Waltz, e que lhe rendeu um prêmio da Academia por Bastardos Inglórios.A percepção é de que ele rouba a cena, quando na verdade seu personagem é construído para pensarmos isso. Waltz é dono de um talento ímpar pra transitar entre todos os tipos de humor que o personagem demandar sem perder o carisma, sem deixar que o público o odeie, por causa disso seus personagens tanto aqui como no filme de Tarantino são cheios de cenas onde ele comete pequenas rupturas na linha seguida pelo personagem, o que nos surpreende positivamente e nos ganha pelo humor. No caso de Deus da Carnificina há ainda um elemento que ajuda a criar essa atmosfera, sendo Alan um renomado advogado que esta no meio de um processo importantíssimo na indústria farmacêutica, seu telefone não para de tocar, quebrando o ritmo em momentos cirurgicamente escolhidos, como quando uma cena parece se encaminhar para o seu esgotamento e outro assunto precisa ser abordado, ou ainda dando o tom que a cena precisa, demonstrando enfado, descontração, etc., e isso é possível também por podermos ouvir a voz de Walter (Rezwin), seu colega de trabalho que fala do outro lado da linha.

É com a entrada de um quinto personagem que o filme transborda a esfera educacional dos filhos e passa a tratar dos problemas pessoais dos personagens. O álcool! Trata-se de um uísque dezoito anos feito no interior da Escócia. Em um dado momento Michael, após se irritar, serve a bebida para si e indaga sobre quem o acompanharia, e aos poucos todos acabam por beber o precioso liquido. E é com a entrada desse fator que os personagens se acomodam de vez e deixam de lado a fleuma, Alan abandona o discurso floreado típico da advocacia, Nancy se revela exatamente o oposto do que parecia ser e Michael assume uma postura que até então parecia combinar muito mais com Alan.

O mais importante no entanto é que dentro da dinâmica do filme os personagens em algum momento vão se identificar e se contrapor com todos os outros em cena, esse tipo de construção dá a impressão de que estamos assistindo a um balé, uma dança que gira em torno das sensações despertadas dentro dos personagens, a química e a qualidade dos atores é crucial pra essa construção. O filme não é maniqueísta, não tenta construir vilões, pelo menos não entre os quatro em cena. Talvez uma ajuda pra entender se há um vilão seja o momento em que Alan cita o Deus da Carnificina pra Penélope, explica pra ela o que ela está sentindo e pra nós dá uma dica pra entendermos o filme, como se trata de um filme baseado inteiramente em diálogos, eles são carregados de elementos pra se entender os personagens e o filme, como se trata de um cenário simplista, é nas palavras, no figurino e nas atuações que está a chave pra se aproveitar o filme na sua totalidade.

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O filme pode ser visto pelo menos até 21/06 no Shopping Cidade Jardim, no Cine Livraria Cultura, no Espaço Itaú de Cinema, no Espaço Unibanco Pompeia, no Jardim Sul UCI e no Kinoplex Itaim.
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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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