Lócus – Vol. 14

Entre eu e o mar sempre haverá uma faixa de areia quase infinita, a qual os humanos denominam praia. Que pressupõe calor, multidão, crianças e sorvete. Em meu país é impossível pensar em praias frias, gélidas, areia condensada, mar que nos nutra apenas pelo prazer da vista. Entre eu e o mar sempre haverá uma faixa de areia quase infinita. As pessoas perguntam de onde que surge essa insistência de Pedro pela distância. Resulta do custo elevado da interação. As pessoas insistem e desvirtuam as perguntas até conseguir a resposta que desejam, mas Pedro não dá o braço a torcer, custos, tempo, desperdício, minutos de prazer e horas de chateação, brada em sonora resposta. E as pessoas perguntam: mas Pedro, que queres então? Está vendo esse prato de spaghetti com molho rose, champignon, alho-poró e camarão? Quero come-lo em paz. Posso? As pessoas terminam por dizer um descontente sim. Ninguém está treinado pra aceitar a misantropia, assim como as pessoas não conseguem perceber que o mundo não é palco de maniqueísmos, isso só existe em livros de ficção. Dizem inclusive que a sabedoria reside nos livros de ficção. Os pais de Pedro não estavam contentes com essa explicação, Pedro, quando ainda era muito jovem, cometeu uma estripulia, o que abriu a possibilidade de outro tipo de sabedoria ser testada. Havia uma lanchonete perto da sua casa, Pedro não sentia fome nem desejo pelo hambúrguer, só quis pedir um lanche, estava com amigos e quis demonstrar uma falsa maturidade imitando o que via os adultos fazerem, foi a beira do balcão e pediu dois sanduíches, gargalhou, disse que era brincadeira e voltou pra sua casa. Horas depois a dona da lanchonete batia na porta da sua casa, Pedro, esta aqui o seu pedido. Pedro gelou, petrificou-se por completo e encontrou uma centelha de forças pra dizer que não, que havia dito que era brincadeira. Seus pais surgiram, não entenderam e após demoradas explicações pagaram os lanches e os levaram pra dentro, muito provavelmente os comeram, mas isso não interessa. Acontece que em qualquer situação que seja, se as coisas não ficassem bem claras você devia arcar com os custos das suas falhas, sejam as falhas de comunicação ou sejam elas quais forem. Os pais de Pedro não entenderam que não foi um erro intencional e resolveram puni-lo, resolveram que Pedro iria arcar com as consequências dos seus atos de agora em diante, e que por isso, ao invés de morrer beirando os oitenta anos, como todo mundo, Pedro iria morrer apenas com duzentos anos. O menino não entendeu o castigo, afinal viver é bom, não? É Pedro, viver é bom, mas só é bom enquanto você não sofrer as consequências dos seus atos, só é bom enquanto existir herança, enquanto as suas dívidas forem pagas pelos seus filhos, enquanto nós não acompanharmos processos históricos inteiros. Sabe quanto tempo vive uma mosca, Pedro? Uma semana. E você acha que ela perde tempo discutindo filosofia com suas amigas moscas? Não. Se ela fizer isso será extinta. Mas mãe, nesse momento Pedro já acumulava uma porção suficiente de liquido em seus globos oculares para que derramasse em forma de lágrimas, eu não quero viver duzentos anos! Ah, meu filho, talvez você possa argumentar que não pode, que não deve, que não sabe, mas dizer que não quer é muita pretensão sua, as pessoas não querem um monte de coisas e a sua vida, Pedro, não é só sua. Pedro se resignou, sentiu a leveza da sua tenra idade na falta de argumentos com os quais lutar, aceitou e cresceu aceitando seu castigo, cresceu aceitando que todos os passos que desse, se mal calculados, iriam assombrá-lo por muito tempo, logo, fez pouca coisa, apenas aceitou a inexorabilidade da vida, escola, faculdade, trabalho, sua casa, o mundo, os livros, seus duzentos anos. Pedro abraça o mundo mas evita as pessoas do mundo, sabe que caso se comprometa com alguém ou algo vai viver tempo suficiente pra vê-los morrer, e ainda havia o fato de que se trouxesse alguém pra sua vida, em algum momento iria ter que explicar essas coisas, teria que perder muito tempo explicando essas coisas pra muita gente, tempo Pedro até tinha, o que não tinha era paciência. Ele envelhecia fisicamente de forma mais lenta que o resto do mundo, no entanto não dá pra retardar o envelhecimento do cérebro, as pessoas veem muitas coisas, Pedro veria muitas coisas, perderia as esperanças o dobro de vezes que o resto da humanidade, se desiludiria o dobro de vezes que o resto do mundo, veria as pessoas fazerem as mesmas coisas que seus antepassados o dobro de vezes que o resto do planeta. Ao completar oitenta anos Pedro já havia perdido seus pais havia algum tempo, já estava começando a esquecer de como eram suas vozes, de como era passar uma tarde em casa na companhia deles, de como era o sabor do arroz que sua mãe preparava e Pedro chorou de novo, pelo mesmo motivo que havia chorado quando o castigo fora dado, Pedro sabia, naquele momento lá em sua infância, que as lágrimas não eram pelas consequências que ele iria sofrer por causa do castigo, mas era por saber que viveria muito tempo sem as pessoas das quais ele sempre iria querer ter por perto. Pedro seguiu até que não se lembrasse de mais nada do começo da vida, até que as lágrimas começassem a rolar não por um motivo específico, mas pela falta dele. Pedro completou cento e trinta anos, fisicamente aparentava não mais que quarenta, mas estava cansado. Cansado, porém centrado. As coisas faziam outro sentido para Pedro, ele tinha a experiência de cento e trinta anos e o corpo de quarenta. Foi em uma ante-sala de sessão de cinema, Pedro viu alguém, Pedro a viu e tudo fez sentido, não por ela, por Pedro. Só lhe restavam oitenta anos, ele não tinha mais tempo a perder, talvez agora as explicações fizessem sentido, talvez agora pudesse perder algumas horas de chateação em troca de alguns minutos de prazer, já havia escrito livros, filosofara o suficiente, conhecera o mundo e ainda tinha oitenta anos pela frente, Pedro conhecia de tudo, sabia de tudo, não tinha que se preocupar em perder uma discussão pois havia visto as coisas, não precisava mais argumentar sobre o que foi certo ou errado no passado, e percebeu que a maldição não era tão maldita assim, que o castigo finalmente lhe ensinara algo, Pedro desperdiçou cento e trinta anos de sua vida se preocupando com algo que iria deixar de preocupá-lo do dia pra noite, com apenas um olhar que lhe despertasse qualquer arremedo de sentimento adormecido. Pedro percebeu que havia passado a vida inteira como espectador, agora precisava atuar, transformar o lugar ao seu redor, não havia ninguém melhor do que ele para isso, Pedro não iria cometer os mesmo erros que viu as outras pessoas cometerem. A partir de então Pedro pode escrever a história que lhe seguiria com a autoridade de um ancião e a energia de um jovem, seu cérebro, há muito cansado, não mais apresentava os sinais de desistência que a idade traz, o que faltava ao cérebro não era jovialidade, era motivação. Pedro morreu aos duzentos anos de idade, velho, mas com a sensação indescritível de ver terminado tudo aquilo que começou.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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