Lócus – Vol. 13

Era sábado quando Pedro teve que finalmente reencontrá-la. Um desses churrascos casuais, coisas de amigos próximos mas que não via havia algum tempo. Lá estava ela, do outro lado do jardim, no extremo oposto, onde ele a havia mantido já fazia algum tempo. E ela, como que praticando a política da péssima vizinhança, atravessou o jardim e veio dizer oi ao Pedro. Oi, ela disse. Pedro, que há muito já havia superado a situação, respondeu com um sonoro silêncio, e logo depois um tímido “oi” desviando o olhar para o seu copo, implorando para que o conteúdo que havia deixado o copo e agora era absorvido pela sua parede estomacal ganhasse logo a corrente sanguínea e fizesse logo o efeito desejado. Tudo bem? Seguiram-se as praxes, quanto tempo… Depois de algum tempo, mais ou menos uns 73 segundo pra falar a verdade, ela logo percebeu que não estava tudo bem e disse, que foi Pedro? Já faz tanto tempo, por que a gente não pode conversar? Quero saber como você está. Você não entende, disse Pedro, é que se eu fosse o Alonso você seria a minha McLaren. Virou o copo e saiu em disparada, encontrou com o anfitrião, agradeceu enormemente a bela recepção, as bebidas geladas, a carne no ponto e disse que precisava ir. O anfitrião olhou em seus olhos, bem lá no fundo e perguntou, é por causa dela, né? Pedro franziu a testa, dela quem? Gargalhou e emendou, claro que não! Preciso ir, tenho prova semana que vem e… muitas provas. Deu um abraço no anfitrião e saiu antes que precisasse inventar mais mentiras. Pedro, apesar de extremamente crítico, nunca teve um bom raciocínio analítico, é por isso que, para ele, as coisas nunca terminavam bem. Trata-se de insistir e deixar que se desgaste, até que dê certo ou se torne insuportável, até hoje não há um só exemplo conhecido de uma vez em que tenha dado certo. Pedro saiu do churrasco e obviamente foi para o bar, nesse meio tempo as bebidas ingeridas na festa começaram a fazer efeito, e o maior efeito do álcool é que ele te faz não querer parar de beber até que você perceba que se beber mais irá desmaiar ou até que desmaie. Pedro então foi para um bar que frequentava havia algumas semanas, era uma bar temático, colonial, de mesas de madeira quadradas e outras bancadas redondas na qual podia se escorar mesmo de pé. Havia três balcões, um na entrada, a esquerda, e outro no fundo do bar, ao qual você acessava após subir alguns degraus e ficava de frente para o pequeno palco improvisado, atrás do palco ficava a escada que levava ao mezanino, onde Pedro nunca subiu, e no canto esquerdo do palquinho tinha a escada que levava ao andar de baixo, onde ficavam os banheiros, mesas com poltronas e o terceiro balcão. Pedro costumava ir pro balcão mais vazio, geralmente era o da entrada. Gostava do bar por que podia beber pints das suas cervejas preferidas e todos os garçons eram amigavelmente terapêuticos. Ao sentar Pedro pediu o tradicional copo de cerveja, cumprimentou todos os garçons que viu e sacou o celular, tentaria angariar algum amigo que o acompanha-se nos copos, gostava de ir lá só, mas talvez fosse interessante ter um amigo nesse dia, se não fosse pra jogar conversa fora, que fosse pra carregá-lo pra casa depois. Após disparar os torpedos (os mais novos não entenderão esse trocadilho) deu um gole longo na cerveja gelada e perguntou ao garçom se estava tudo bem. Sim, tudo bem Pedrinho, retrucou o garçom, e com você? Pedro pensou bem na resposta, digamos por assim dizer que quando eu conseguir ver o fundo desse copo as coisas já terão melhorado, floreou Pedro. O garçom abriu um sorriso e perguntou se ele precisava do cardápio, Pedro recusou e o garçom foi cuidar das outras mesas que estavam começando a ser preenchidas. Diferente dos bares, onde as conversas se resumem ao cotidiano, os relacionamentos evoluem, pois as conversas tendem a falar, além do cotidiano, também sobre as ambições das pessoas envolvidas no relacionamento, sobre o que elas querem ser. Diante da sua falta de trato analítico Pedro parecia aguentar a evolução de algum relacionamento somente enquanto isso pressupor a sua própria evolução, se não evoluísse, as coisas não poderiam simplesmente serem deixadas como estavam, amigo e ex-namorado, para Pedro, não eram cargos cumulativos, a cabeça de Pedro voava e tal conclusão custou-lhe três pints de Heineken, mais ou menos vinte e sete reais. Os amigos de Pedro, por fim, deram desculpas, de fato era sábado, quase de noite e geralmente pra esse dia as pessoas tem planos, Pedro tinha um, mas fora frustrado. Após beber o quarto pint a música ao vivo começou a ser executada no palco improvisado, Pedro mudou-se para uma fresta no balcão que ficava de frente pro músico e acompanhou em euforia contida as canções que estavam sendo tocadas, vez ou outra aplaudia, vez ou outra sentia medo, vez ou outra cantava, vez ou outra se enchia de coragem, vez ou outra pedia uma música específica, vez ou outra trocava olhares com a morena de pele branca que dançava junto com um grupo de amigas. Pediu a última cerveja para o mesmo garçom que lhe serviu a primeira, ainda com o mesmo sorriso, com a mesma atenção, talvez com um pouco mais de cansaço mas com a mesma fleuma, deu um gole e disposto a abrir mão da única dúvida que ainda lhe restava jogou a moeda pra cima.

Pedro está de volta. Tentarei continuar aqui um diário da vida fictícia desse garoto que, insisto, não sou eu. Se tudo der certo publicarei os Lócus sempre às quintas-feiras. Pra quem, por um acaso qualquer, tiver gostado desse texto e não saber o por que de ele estar no volume 13, pode clicar no link a seguir e saber de onde veio esse cara. https://despedidaemsaopaulo.wordpress.com/category/locus/
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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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