Texto 8 de 2012

O coração já batia, para o coração não há início, nem meio, nem fim, pois se houver não será mais vida, logo, não interessa pra nós. A consciência veio de súbito, como um sonho que vai se transformando em realidade. Os olhos se abrem, ainda não formam imagens, os pensamentos impedem que as imagens se construam. Que horas são? Que dia é hoje? Uma consulta ao celular calmamente repousado no pequeno aparador ao lado da cama resolve esse problema, hoje é quinta-feira, são seis horas e trinta e sete minutos, muito antes do que se deveria acordar. Mas não há sono, logo, não faz sentido continuar deitado esperando que qualquer tipo de preguiça invada este corpo convalescido do cansaço. Os olhos agora miram o teto, passaram-se três minutos e vinte e dois segundos, os olhos procuram algum tipo de sentido nisso tudo, os olhos pensam que podem resolver qualquer tipo de dilema filosófico apenas olhando o nada enquanto o cérebro faz todo o trabalho, percebe que não. Levanta o tronco e senta na cama, procura qualquer um dos três tipos de aparelho que possui e que tem acesso à internet, os que estão perto jazem com a bateria descarregada, os que funcionam estão longe e o corpo insiste que quer permanecer sentado, ainda recobrando todas as suas funções não-vitais. Já se passaram cinco minutos e vinte e oito segundos. Tenta então forçar algum resquício de bateria no aparelho desligado ao pé da cama, nada. As pernas agora ganham a beirada da cama e as solas dos pés tocam o chão enquanto as palmas das mãos suportam o peso do ombro na quina do colchão, olha então pra pilha de livros que nunca vai ler e evita tal pensamento. Percebe que precisa de alguma forma ganhar o dia, preparar o café, o omelete com bacon, cebola e curry, o suco de laranja natural, comprar pães e preparar a mesa, é a primeira tarefa do dia. Já se passaram quinze minutos e doze segundos. Levanta-se, anda com cuidado os quatro passos até a porta do seu quarto, abre-a, continua então os seis passos restantes até a pia do banheiro, abre a torneira, lava o rosto, se olha no espelho, tenta em vão arrumar o cabelo, se dirige ao vaso sanitário, urina, volta à pia, escova os dentes, primeiro o lado direito da arcada dentária, dentro e fora, depois o esquerdo, novamente dentro e fora, por fim os dentes da frente, também dentro e fora, a língua. Mais um pouco de água no rosto, volta ao quarto, veste algo apresentável e antes de deixar o quarto liga o rádio, uma música a qual ele não gosta e/ou não conhece invade o ambiente em uma lufada de ondas e ar, deixa o quarto, busca as chaves, carteira e óculos de sol, vai até a padaria, compra o que falta pra preparar o café, volta, prepara o café, come. Essa rotina se segue por todos os dias enquanto o coração insistir em bater, exceto se, ao ligar o som, a música tocada na rádio lhe agradar os ouvidos, nesse caso então o dia seria completamente diferente.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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