Texto 7 de 2012

Hoje Roger Waters viria à São Paulo apresentar a sua opera rock The Wall, viria, se minutos antes uma voz feminina não inundasse o estádio do Morumbi anunciando que devido a problemas de saúde o ex-baixista do Pink Floyd não iria se apresentar, mas que o show iria ocorrer e no seu lugar seríamos agraciados com a performance competente de Nazi! O show foi ontem, 1º de abril, e não foi, mas seria muito interessante se essa mentira fosse contada no estádio assim como eu a contei aqui! Mas o que se seguiu ao show do Roger foi exatamente o contrário da temática do dia, foi um dos shows onde eu me expressei da forma mais verdadeira possível. Eu. O show teve inicio por volta das 19h40 e cheguei ao meu setor, arquibancada azul, por volta das 19h20, totalmente em cima da hora para os padrões brasileiros. Fui só, sentei onde quis, sem pensar ou negociar a respeito, me diverti, dei risada, chorei, tive um show pleno, reagi de forma verdadeira a cada letra, a cada canção, a cada encenação, o porco, o avião, as crianças e o muro caindo. Não sei como era a relação de Roger com o Floyd na época das gravações mas acredito que já deveriam não ser das melhores, caso contrário ele não ia querer construir, literalmente, um muro entre ele e o resto dos músicos durante o show, e é isso que acontece, durante a apresentação um muro vai sendo erguido na frente do palco e em vários momentos vemos apenas Roger, em vários momentos vemos apenas um muro, um muro high tech, mas acima de tudo um muro e tudo o que um muro representa no imaginário popular. Eu queria poder saltar esse muro e tentar, pelo menos uma vez na vida, fazer a coisa certa, escrever a verdade sobre o que eu sinto, sem me colocar pra baixo nem me elevar demais, escrever exatamente o que eu sou, escrever sobre quais são as minhas aflições de verdade, sobre o que eu realmente sou capaz de fazer e sobre o que realmente eu não sou capaz, sobre aonde eu posso ir e com quem de fato eu posso ir, sobre quantas pessoas eu vou conseguir convencer das minhas virtudes. Um texto livre de emoções, livre de qualquer julgamento precipitado, de qualquer julgamento arrefecido por uma lógica triste ou irreal. Na incapacidade de me entender por completo eu acabo por não acreditar totalmente em nada, por perder a confiança em qualquer coisa que a vida possa sugerir como confiável. Eu não confio nas pessoas e não confio no amor que as pessoas podem sentir. Eu não confio na igreja, no governo e nem na família. Eu não vejo como esses pequenos clãs podem ser coisas boas já que no primeiro sinal de problema o que ocorre é que as pessoas correm para dentro de seus castelos familiares, se fechando em relação aos problemas do mundo e se blindando do contato humano, que fique com os seus, diria. Egoísmo, isso é a família pra mim, uma forma não de gostar mais de alguém, mas de gostar menos dos outros. E nessa construção podemos incluir todos os tipos de família, os amigos, a quem tratamos como irmãos e os namoros que poderiam virar casamentos. A verdade é que não existem motivos para que uma pessoa não se interesse por outra, não goste de outra ou não se apaixone por outra, o que existe é a falta de oportunidade. O amor é uma questão de tempo e é por isso que nunca será um privilégio, quem acha que ama apenas uma pessoa sente isso apenas por que não se deixou gostar dos outros por medo que esse gostar vá longe demais, por um lado isso me leva a crer que a sociedade não é monogâmica por natureza, mas sim por cultura, e por outro lado isso me diz que nós só não gostamos de alguém por que ainda não temos horas suficientes de mesa de bar. No fundo as pessoas não fazem jus a sua herança, se traem, se matam e eu perco totalmente a confiança nelas, em mim e na minha capacidade de pintar um quadro livre da dor do pintor. Os quadros saem como o artista quer que eles saiam e as palavras formam as frases que os ouvidos querem escutar, o único controle que temos é sobre como vamos lidar com as consequências, ou seja, o único controle que temos só existe depois de muito tempo em que esse controle poderia exercer algum efeito, e dessa forma é que se cria um muro que separa o mundo de mim, um baixista, assim como Roger, bem menos genial e bem mais palatável que ele. Bom, depois disso tudo, de todo esse discurso, parece que as coisas não ficaram bem claras, mas o que acontece é que se ficarem, se não existir o espaço entrelinhas para a imaginação humana fazer efeito, esse deixa de ser qualquer coisa que queira ser e passa a ser um texto jornalístico, um editorial qualquer que expressa uma opinião, e eu não tenho uma opinião a qual eu quero divulgar, eu tenho um caminho pra chegar a uma opinião, o caminho são essas páginas e a opinião vai ser a forma como eu vou olhar o mundo ao acordar amanhã.

02/04/2012
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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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Uma resposta para Texto 7 de 2012

  1. fernandestali disse:

    Poxa eu só queria saber como foi o show e como ele irá ser pra mim…

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