Texto 33

Era Roger Waters executando a obra prima do rock progressivo, “Dark Side of the Moon” viera a minha cidade e todos íamos assistir, era um acontecimento; foi um acontecimento. Eu a convidei por que íamos todos juntos mas eu ficaria em um setor sozinho e por que eu a amava, ela aceitou e me disse obrigado, meu pai pagou tudo. Na manhã do show as considerações eram enormes, a expectativa também, principalmente a expectativa de sair dali com um medo a menos e uma namorada ao lado. Era minha grande criação, seria minha grande obra sendo escrita diante da grande obra dos mestres ingleses. Parecia tudo tão bem e na porta do show… Não, na verdade tudo havia acabado na noite anterior, antes de dormir, ainda não compreendi se ela amava demais o namorado, ou se ela me suportava apenas por uma mera questão de gosto passageiro. Três meses depois ela terminou o namoro, mas eu não era mais viável, já havia me trancado na minha insignificância, já havia me comprometido com o silêncio e com a saudade. Ainda existe algo que me faz acreditar que as coisas estavam encaminhadas para o desfecho que deveriam tomar, por mais que eu quisesse algo diferente, hoje eu vejo que estava tudo encaminhado pra acontecer como aconteceu, analisando a história eu não encontro erros, só uma sucessão de fatores que me deixaram sem ela, e por um bom motivo, sem culpas, apenas motivos, provas de vestibular, inexperiência, estatura, um gosto duvidoso por tudo o que diferia de Pink Floyd e uma falta de coragem que até hoje me prende nas ampulhetas de areia, como um homem de areia. Não foi na porta do show, lá só conhecemos as pessoas que seriam instrumentos do destino, coadjuvantes de luxo do meu fracasso. Acordei pra ir ao show acompanhado, como quem tem um ultimo tiro na agulha, acordei e caí em desgraça, já na fila senti os efeitos da noite anterior, o desinteresse, a indiferença, e eu a amava. Já na plateia as conversas tinham como alvo as pessoas ao lado, os coadjuvantes conhecidos na fila, e o entrosamento era melhor com eles, o cigarro dividido sequer foi tragado, mas eu ainda a amava. Com os primeiros estalos da guitarra, com os primeiros acordes de The Wall, um muro que nos separava se ergueu, os comentários durante as musicas eram cochichados nos ouvidos alheios, o sorriso e as letras eram compartilhados com a multidão, eu assistia a tudo como se fosse um filme, imóvel, o porco foi comemorado com a alegria dos outros, nos intervalos as conversas e as trocas de impressões eram feitas com seu novo amigo, e eu consumia tudo em silêncio, eu gritei, chorei e dancei o show no mais completo silêncio. As luzes se apagaram e o coração começou a bater, o lado negro da lua entrava em cena, e tudo, a respiração, o tempo, o grande show que víamos como se estivéssemos no céu, o dinheiro, nós, eles, ela, tudo era completamente excluído do meu mundo, se eu acreditasse no amor, diria que partiu meu coração, como não acredito, tenho certeza que tudo foi apenas um grande dano para o meu cérebro. Estávamos todos embaixo da lua, mas eu me sentia como se pra mim, somente pra mim, ela havia sido eclipsada, estava escuro, eu estava no escuro, não via mais nada. Novo intervalo e eu a ignorei, eu acabei com minha noite, no melhor show de todos, eu fui o pior sujeito que poderia ser, o prisma que destrinchava a luz branca em arco íris era pra mim como uma mera representação da incapacidade de eu me destrinchar em algo que de fato eu não era, simplesmente não havia o que fazer. O desfecho veio como se eu fosse uma daquelas crianças no coral de Waters, que cantava alegremente, e cantei, desta vez até gritei, foi profundo, foi como se não houvesse mais ninguém no mundo, só eu. Ao término do show e das minhas esperanças eu sabia que ainda a amava e que de fato a amaria ainda por um bom tempo, mas eu estava confortavelmente sedado e não sairia de forma alguma daquela situação, só queria ir pra casa escutar de novo o tão aclamado álbum, eu só queria esquecer tudo. Pode parecer uma contradição eu negar o amor e declará-lo tantos vezes num curto espaço de linhas mas é que eu não vejo outro nome pra dar à essa obsessão que eu sinto por ela e não vejo sentido nenhum no que as pessoas chamam de amor, afinal, amor deveria ser eterno, deveria ser lindo e nunca deveria ser platônico. Eu a odeio profundamente, tive o pior dos amores platônicos, mas ainda hoje eu a amo, e essa é a pior parte. Dias depois, conversando com um amigo do Rio de Janeiro, falávamos sobre o show, é que um dia antes de tocar em São Paulo, Roger tocou no estado vizinho, e falava ele sobre como havia perdido a oportunidade única de cantar “Wish You Were Here” olhando para os olhos de sua namorada e com a voz ao vivo de Roger ao fundo, perdeu a oportunidade por que na época não tinha namorada, até cogitou segurar a mão de qualquer moça que estivesse na plateia ao seu lado e entoar os versos, mas teve vergonha da reação dos amigos, havia ido com amigos e perguntou com quem eu fui ao show, respondi que fui ao show sozinho.

27/10/2008
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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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