Texto 6 de 2012

Nesses últimos dois dias e ao que tudo indica hoje também, eu precisei ir pra USP utilizando o transporte público. O indispensável, intragável, achincalhado transporte metropolitano da grande São Paulo. Como até as pedras da rua sabem, eu moro em Guarulhos. E como até a areia que fica entre as pedras da rua sabem, eu sinto por Guarulhos o mesmo tanto de amor que sinto por essas teclas a, m, o e r que eu digitei pra escrever essa palavra que não representa quase nada pra mim. O fato é que um dos motivos desse meu dissabor por Guarulhos é o fato de aqui não ter uma estação de metrô ou trem sequer, logo, eu tomo um ônibus intermunicipal perto de casa que me leva até a estação Portuguesa-Tietê do metro, de lá sigo até a Luz, onde baldeio para a quase parisiense (exceto pelo tamanho) linha 4 amarela, desço na estação Butantã e então pego o circular que me deixa quase na porta da FFLCH, e pra voltar pra casa, faço o mesmo trajeto ao inverso. Um caminho que demora cerca de uma hora e dez, uma hora e vinte. Três coisas me chamaram atenção positivamente nesses dois dias, dentre as inúmeras reclamações que poderíamos fazer sobre os transportes públicos, e devemos fazer, ainda houve algo de bom a se perceber dessa odisseia. Primeiro a mixagem dos álbuns. Quando você vai de carro a sua atenção da música que toca no som do carro é constantemente desviada, obviamente, pelas demandas do trânsito. Eu sei que deveria ser o inverso, a atenção principal devia residir na estrada, nas ruas, nos outros carros, mas pra mim não é assim que funciona. Além de ficar mais fácil e mais contínua a atenção dispensada à música (em alguns momentos contínua demais, como ontem quando eu passei da estação em que devia saltar do trem), há também o beneficio dos fones de ouvido, de onde é possível perceber com maior clareza a mixagem do álbum e o som de cada instrumento, e o mais interessante, é possível perceber em quais álbuns a mixagem é feita de forma brilhante e em quais ela não é tão levada em consideração. Ontem, quando eu perdi a estação em que devia baldear, o fiz por que estava maravilhado com a mixagem de Let It Be, dos Beatles. O segundo fator que mereceu minha apreciação nos trens e ônibus de São Paulo não é algo exclusivo dessa esfera urbana, mas é algo que eu percebi lá. Meu pai é canhoto, tenho nesse semestre três professores canhotos e até já percebi que ao longo de suas 23 temporadas, Bart Simpson também é canhoto, mas foi ao ver alguém canhoto se esmerando pra fazer anotações num trem em movimento que eu percebi a beleza do fato incomum que é alguém escrever com a mão esquerda. Pra mim soa contrário ver alguém escrevendo com o braço “errado”, assim como é estranha essa sinestesia entre “soar” e “ver” que eu utilizei na última frase. Mas eu achei bonito e depois passei até a olhar de forma diferenciada pros meus professores, pro meu pai e até pro Bart quando eles se punham a rabiscar uma folha ou um quadro negro. É uma imagem interessante a do canhoto. E é na imagem que reside o meu último motivo de deleite por tomar o transporte público. O rosto cinematográfico. Alguém que tenha um rosto cinematográfico não é alguém necessariamente bonito, mas alguém que tenha traços fortemente expressivos ainda que involuntários. Não é comum achar esses rostos em qualquer lugar, mas tomar o transporte público faz com que vejamos muitos rostos todos os dias e isso abre uma janela de possibilidades, e quando você finalmente vê um desses rostos é uma coisa sensacional! O último que eu vi foi segunda feira, no circular que me leva do metrô pra USP. Entrou no ônibus onde eu estava uma menina de cabelos negros, lisos, pele não muito morena mas também não muito clara, olhos grandes e azuis e traços fortes, não muito delicados, lábios tão expressivos que combinados aos olhos parecia tragar a sua atenção, te intimar a desvendar o que o cérebro por trás daquele rosto estava pensando. Não foram mais que dez minutos de contemplação mas foi um fato tão extraordinário que valeu o dia, a semana, as horas intermináveis em ônibus e metrôs. Apesar desses fatores ainda acho que em São Paulo o carro seja a melhor opção, ainda que isso signifique horas sem fim de luzes vermelhas ou uma contínua e triste faixa cinza intercalada por pequenos riscos brancos e amarelos.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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