Texto 5 de 2012

As vezes eu me sinto o pior dos seres humanos, o mais desprezível deles, a maior aberração que o planeta pode criar. As vezes eu tenho certeza disso. Esses momentos costumavam ser as madrugadas, no entanto madrugada pra mim virou sinônimo de tarde sem sol. Agora esses momentos ocorrem nas manhãs, as de verdade, que pra mim são fins de tarde; e nos fins de tarde, que pra mim são manhãs. É uma sensação brutal, aterradora, física, grotesca. E eu vou me sentindo assim ao mesmo tempo em que eu não vou conseguindo fazer as coisas que eu preciso fazer, e uma coisa vai levando a outra e entramos naquele circulo vicioso característico. Circulo vicioso, jargão incrivelmente corporativo. Certa vez eu estava fazendo um curso de aperfeiçoamento na Gestão de Pessoas do Banco do Brasil, onde, teoricamente, deveria se encontrar a nata do RH do banco. E lá fui eu, munido única e exclusivamente do meu deboche, da minha falta de vontade e da minha autodepreciação. Em uma das irritantes gincanas corporativas pra aprendermos sobre algo que nunca daria tempo de por em prática eu fiz par com uma japonês católico, era o primeiro que eu havia visto na vida. Japoneses, antes desse dia, seguiam o estereótipo de aderirem à religiões como Johrei ou Budismo, enfim, acho que não cabia mais preconceito na minha cabeça como não coube nessas duas linhas de cima. O fato é que eu e o japonês católico fervoroso fizemos par nessa gincana referente a algum tipo de formas de fidelização de clientes que, pra quem não sabe, é a forma de fazer um sujeito deixar grande parte do seu salário na banco em troca de um pedaço de plástico dourado onde se lê o termo Gold e se supõe que venha acompanhado de alguma espécie de “status social”. Enfim, esqueci de dizer também que o nipônico em questão além de católico fervoroso era também um grande defensor do carreirismo no banco. Em dado momento eu tive que explicar que a gente iria escravizar o pobre do cliente (obviamente não usei esses termos) fazendo tais e tais ações e que isso culminaria em um círculo virtuoso. Circulo virtuoso. Essas palavras soaram como música aos ouvidos do professor em questão e do meu colega temente à Deus. Circulo virtuoso, que bela nomenclatura, que bela palavra chave bradou este nobre colega, diziam os apastelados alunos e professor a minha volta. Que porra eu falei? Foi a única coisa que eu pensei, desde que eu tenho nove anos eu conheço esse termo e não há nada mais chato do que você entrar em um círculo seja ele qual for. Depois de algum tempo, por fazer dupla comigo, o tal colega que me foi par na gincana clamou pra ele metade da autoria do termo que eu falei, obviamente essa frase do capeta foi repetida muitas vezes durante a semana do curso, inclusive pelo colega fã da cidade de Aparecida que sempre introduzia o termo como aquele criado por nós. Eu tentava me manter sóbrio, inclusive nos momentos em que o professor, um fervoroso gerente geral de uma agência qualquer, previa meu brilhante futuro no banco. Eu não sei se esse período no banco ajuda na construção desses momentos em que eu me desprezo profundamente, que eu tenho vontade de sumir do mundo. A verdade é que quase não me lembro desses momentos mais, pra falar a verdade eu não queria ter contado essa história aqui, contei por que me lembrei no meio da escrita e eu realmente não tinha muita coisa pra falar, como eu nunca tenho, de fato. Acho que o banco não tem nada a ver com isso, nem as pessoas, nem nada. Eu venho tentando ser bem sincero desde que eu voltei de viagem no meio do ano passado, confesso que tenho tido uma evolução bem interessante, no entanto isso não teve nenhum resultado prático até agora, as pessoas continuam me vendo da mesma forma decrépita, eu continuo contando as mesmas histórias de antes, só que com mais detalhes, e o mundo continua me achando um lixo, como eu sempre fui. Talvez esse seja um circulo vici… ou virtu… quer saber, foda-se.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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Uma resposta para Texto 5 de 2012

  1. fernandestali disse:

    Pedro, você me deprime! Me dá vontade de bater…
    Eu vejo as coisas que você escreve, e esse seu jeito deprimido e aí eu penso que eu não quero ser assim. Sua depressão me ajuda a sair da minha. Eu não consigo entender porque você quer deixar de existir ou porque se deprecia tanto. Quem é que te vê de maneira decrépita? Você está louco? Ninguém te vê assim… Quem disse que você é um nada sabe? “Segundo minha ex-namorada eu sou só mais um” Isso significa que sua namorada era uma idiota qualquer e não que você é só mais um, aposto que ela é acéfala… Se for por isso que você fica assim, acorde pra vida! Se não for, acorde pra vida também! Pare de passar a madrugada querendo deixar de existir e de fato exista!!! Você tem família, amigos, pessoas que te admiram! Você tem um 42, é super inteligente, já viajou pra vários lugares que a maioria das pessoas jamais poderão conhecer, sua vida é boa, você não tem do que reclamar não! Pare de ser besta, faça o que você gosta… Olhe pro lado positivo! Você não é Charles Bukowski… Posso te esbofetear pra ver se você cai em si???
    Dá vontade sabia???
    Me poupe Pedro! ACORDA!!!
    Você está cego numa densa nuvem de depressão… Sai disso meu filho!
    Só não se filie a algum partido pra encher o saco dos outros tá???
    Ah e pare de afogar as mágoas na bebida. Não adianta nada, e você não tem fígado de Amy Winehouse…
    :)

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