42 aos 24 – parte 19

Você pode tirar sua carteira de motorista, de trabalho, arrumar um estágio, beber no boteco com os amigos, comprar uma carteira de cigarros, mas o maior indício de que você realmente cresceu e não é mais uma criança é o fato de as coisas que metem medo em você mudarem de figura. Você pára de ter medo de quando seus pais te chamam pra conversar e começa a ter medo de que a sua declaração do Imposto de Renda caia na malha fina da Receita Federal. O maior indício de que eu não cresci, apesar dessa idade toda não é o de que eu ainda tenho ideias idiotas como fazer uma tatuagem, mas sim o fato de que as coisas que me metem medo continuam as mesmas de sempre. Quando eu disse pra minha mãe que faria uma tatuagem ela apenas me pediu pra que não fosse algo grande. Não que ela tenha me pedido de fato, ela me recomendou, mas essas recomendações eu costumo encarar como pedidos, não que eu vá atende-los sempre, mas eles tem um nível de importância maior do que meras recomendações. A minha mãe não teve medo por mim e pela tatuagem, ela teve aquela precaução peculiar às mães, precaução nada mais é do que o medo de sentir medo. Quando eu nasci, exatamente vinte e quatro anos atrás, os medos da minha mãe mudaram de lugar, eu não faço ideia de quais eram eles, talvez o medo dos pais, o medo do futuro, o medo acerca do que a vida reservaria pra ela, qualquer coisa do tipo. Mas quando eu nasci o medo dela passou a ser, em grande parte o meu medo, não o que eu venha a sentir de fato, mas o medo que eu deveria sentir. Os meus medos quase nunca convergem com os da minha mãe, certo dia eu comentei pra ela que adoraria saltar e pára-quedas, ela quase enlouqueceu, que não seria possível, que era muito perigoso, eu usei um argumento infalível, o de que eu não poderia deixar de viver a minha vida por causa dos medos dela. Ela então me pediu apenas pra não avisá-la do dia do salto. Alguns meses depois eu ganhava os céus de Boituva na vã esperança de que um pedaço de tecido preso às costas do meu instrutor fosse salvar nossas vidas, e salvou. Ao voltar eu contei pra minha mãe, ela mal acreditou. Nós não compartilhamos os mesmos medos, nós não temos o mesmo frio na barriga em relação as diferentes coisas da vida, no entanto, naquela tarde de domingo em que eu contei pra ela minha intenção, fosse lá o que ela estivesse sentindo, a sua demonstração foi de certa complacência com o fato, pule, só não me deixe saber; tatue, mas que não seja muito grande. Essas condições, esses pequenos “mas” são, ao meu ver, sua forma de tentar exercer algum controle, de por em prática alguns dos medos que eu deveria sentir mas não sinto, e são eles que fazem as coisas funcionarem, minha mãe não me proíbe de nada, ela coloca essas pequenas considerações pra que agente equilibre esses medos. No fim das contas ela até disse que faria uma tatuagem um dia, e por que não faz? Eu perguntei. Medo de agulha. Ela encerrou o assunto.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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