42 aos 24 – parte 11

O meu pai é uma das figuras mais ambíguas que eu já conheci, ele me ama por enigmas. Pela jocosidade da coisa. Ainda hoje, aos vinte e quatro e como sempre foi, mesmo quando eu trabalhava, é meu pai quem paga as minhas contas. Ele me sustenta desde sempre e é assim que as coisas são, não consigo ver como seria se fosse diferente, até cogito, mas não consigo entender. Portanto se eu fizer uma tatuagem é ele quem vai pagar por ela, por cada linha do quatro, pelo preenchimento dos dois. Por tudo. E ao meu pai fui perguntar sua opinião. A opinião, claro, mas não pelo fato dele pagar, já comprei um milhão de coisas sem lhe pedir antes, fui pedir sua opinião por que ele é meu pai, oras. E a ideia me foi interessante, “se quiser fazer faça, não ligo, não tenho problemas, mas eu nunca faria na minha vida, não acho bonito”. Como eu já havia me decidido a fazê-la aquele discurso não teve grande influencia no que se passaria, mas mesmo assim, de alguma forma eu me senti desencorajado a tratar do assunto mais profundamente, não pela simples recusa, já havia treinado tal efeito com minha avó, a quem eu cogitava a ideia e ela simplesmente me pedia, pelo amor de Deus, que não fizesse tal coisa. O problema com o meu pai foi diferente, essa forma distante e ao mesmo tempo precisa de colocar sua opinião sobre certas coisas. Na verdade, não acredito que o assunto haveria de ganhar muito mais linhas, é isso apenas. Faça o que quiser e como sempre ele estará me apoiando, se não financeiramente, financeiramente e psicologicamente, mas sempre financeiramente. Por várias vezes eu pensava que se um dia fosse rico poderia pagar de volta tudo o que ele já gastou comigo, só que, obviamente, não se trata de dinheiro. Se trata de tempo, de peso, de joelhos doendo, vista precisado de óculos. Eu nunca vou poder devolver ao meu pai e também à minha mãe todo o tempo que eu tomei deles, esse foi um investimento em fundo perdido, não há volta. E eu acredito que seja aí que resida essa ambiguidade, no fato de que independente de como as coisas sigam ou de como as ideias sejam postas, no campo da experiência ele sempre terá razão, ponto final. Dizem que as melhores analises vem de quem esta de fora do cenário e assim pode compreende-lo em sua totalidade, não é bem verdade, mas creio que podemos considerá-la nessa hipótese, logo uma pessoas poderia compreender melhor a vida daqueles que o cercam do que elas próprias poderiam compreender suas vidas, e assim, se meu pai sabe como ninguém o que é ser um jovem de vinte e quatro anos e quais deveriam ser suas atitudes, eu, de certa forma, posso compreender perfeitamente o que é ter cinquenta e um anos e ter um filho de vinte quatro, o problema é que nessa minha vasta compreensão, eu compreendo que não adianta mais argumentar, enquanto que pro meu pai essa é a única alternativa que resta, e assim contemplamos um certo equilíbrio, contemplamos, não é de todo verdade, mas contemplamos, e por ora isso basta.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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