42 aos 24 – parte 10

Bom, eu estava pensando bem e cheguei a conclusão de que o bom de ter uma tatuagem tão abstrata quanto um 42 é que no fim das contas eu posso inventar qualquer significado pra ela. Sei lá, eu poderia dizer que é o número que eu calço, e quando as pessoas ficassem chocadas pelo fato de eu tatuar uma coisa tão banal assim, eu desmentiria e inventaria algo ainda melhor, não, brincadeira, não é quanto eu calço, é o numero que de tiros que eu tomei em um assalto e graças ao Senhor Jesus Cristo eu me salvei, e quando as pessoas, horrorizadas, viessem me perguntar como foi o assalto eu iria dizer que estava com um dos meus comparsas e quando a polícia chegou, eu comecei a trocar tiros com eles, mas que minha fé havia me salvado, tudo bem que eu passei três anos na cadeia, mas havia me regenerado e agora era um fiel cordeiro de Deus, e diante da mistura de incredulidade e complacência das pessoas que por ventura acreditassem nessa ladainha eu iria rir e chamá-las secretamente de idiotas. Muito provavelmente ninguém iria acreditar nisso, mas pelo menos esse seria um exercício constante, eu poderia inventar coisas novas todos os dias. Em um bar, assim que alguma garota se aproximasse pra perguntar sobre o motivo desse número tatuado em mim eu diria que se trata do tamanho do meu pênis, e diante da sua cara de dúvida ao tentar visualizar a magnitude do meu falo eu iria acalmá-la e dizer que se trata da medida em milímetros. O que provavelmente iria fazer com que a moçoila saísse em busca de outro varão que tivesse melhores dotes penianos, ou talvez, caso ela tivesse algum senso de humor, pudesse fazer com que quem quer que perguntasse se dispusesse a indagar mais a respeito e entrar numa sequência de piadas que, se bem construídas, poderia levar a um longo diálogo, ou qualquer outra coisa. Poderíamos depois disso apostar uma corrida até a quadragésima segunda dose de qualquer bebida remotamente alcoólica, seria uma bela desculpa pra embebedar alguma garota que eu estivesse afim, ou ainda uma bela desculpa para uma garota de pouca confiança se deixar embebedar por estar afim de mim. As possibilidades seriam imensas, eu poderia usar a minha tatuagem pra passar a impressão que eu quiser pra pessoa que estivesse diante de mim naquele momento, bastaria deixá-la um pouco a mostra para que a pergunta sobre seu significado viesse a tona e assim eu poderia dar a resposta adequada segundo meus interesses, isso parece manipulação, mas convenhamos, utilizar a minha tatuagem pra descrever aspectos da minha personalidade não é manipular, é como uma vitrine, tem vários produtos dentro da loja, mas eu mostro na vitrine aqueles que eu quiser, e se assim eu chamar a atenção do comprador ele então descobrirá quais são os outros produtos da loja, e o mais importante, se eles valem a pena.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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