42 aos 24 – parte 1

Eram 00:42 quando decidi fazer a primeira tatuagem de minha vida, seria simples, pequena, de tal forma que não doesse muito, que não me expusesse muito, que fosse algo meio pessoal, algo inteligente e que no entanto as pessoas entendessem ao ver, ou que se não entendessem de fato, pelo menos que gerasse especulações. Na verdade eu não sabia bem o que seria aquela tatuagem, não que fosse algo abstrato, é que de fato eu não sabia qual seria, eu tinha as características, tinha pensado em alguns lugares, bíceps, tríceps, clavícula. Escolhi uma tipologia interessante, pensei em alguns desenhos, algumas frases, o rosto da minha mãe… Não, deixei essa idéia de lado logo em seguida, sem rostos nem feições, dificilmente seria um desenho na verdade. Sou o tipo de pessoas que liga mais pra letra do que pra melodia de uma música. Sou um sujeito das coisas escritas, em um português da norma culta que nem sei se existe mais. Sou um sujeito, pelo jeito, de tatuagens escritas. Na verdade a ideia de fazer uma tatuagem nunca me passou pela cabeça, mas acontece que agora ela veio. Veio de uma forma que me pegou desprevenido, talvez seja a total falta do que fazer, talvez seja essa típica necessidade de se juntar a todo mundo, todo mundo tem tatuagem hoje em dia, mas na verdade acho que não, isso não combina comigo, não que eu não faça o que os outros façam, eu só não faço as coisas por que os outros fazem. Acho que na verdade essa ideia é fruto de uma frase da minha avó. Certa vez, ela disse a uma de suas netas que se um dia esta chegasse em casa com uma tatuagem, ela sairia de casa. Talvez foi esse tipo de preconceito que me tenha feito querer fazer uma tatuagem, não que eu queira ser alvo de preconceito, nem que eu queira ter uma causa pra lutar, é bem possível lutar contra preconceitos mesmo sem ser alvo deles, é o que eu faço, eu acho… Parece que o que eu quero de fato é me identificar com algo de forma tão profunda a ponto de ter certeza que aquilo nunca mais sairá da minha cabeça, assim como nunca mais sairá de mim, da minha pele. Parece que o que eu quero é sentir-me, pela primeira vez, completamente ligado a algo, ao contrário de namoradas, amigos e times do coração, uma tatuagem nunca vai simplesmente abandonar nem ser abandonado por você. Tem que ser pra sempre, tem que ser.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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