Texto 03 de 2012

Bolachas de cerveja não são pires, elas recebem qualquer coisa e não são lavadas, no entanto são bonitas e de vez em quando guardam algumas boas histórias. Pires, por outro lado, são lavados, de cerâmica e podem muito bem suportar biscoitos mordidos e colheres recém mexidas no fundo da xícara. Até dá pra colocar um biscoito em cima de uma bolacha de cerveja, pode ser que nada aconteça, mas também pode ser que seu biscoito fique com um gosto estranho e você até, quem sabe, passe a não gostar mais de biscoitos, principalmente se eles estiverem muito amanteigados. Todo mundo gosta de pertencer a um clubinho, clubes são legais, com as pessoas dos seus clubes você pode falar com total falta de zelo, pode ser íntimo ao extremo, podem falar mal de si mesmos, podem marcar encontros, festas, churrascos, cervejas e é quase certo que todos aparecerão, quando não todos uns noventa por cento. Uma dessas formas de clubes é o emprego que você tem. Por mais que não haja intimidade existem os privilégios desse clube. Eu, por exemplo, fui bancário por quatro anos, não pagava tarifas, não pegava filas, tinha atendimento diferenciado, tinha uma linha de crédito enorme, me eram confiados inúmeros segredos bancários, informações sigilosas, privilegiadas, me era confiado, algumas vezes, uma quantia enorme de dinheiro. Tinham as responsabilidades, claro, mas nunca, em nenhum banco eu precisava pegar fila, era só apresentar a minha identificação funcional e um “colega” prontamente vinha me atender como quem atende a um amigo de longa data, e por me sentir pertencente a esse grupo eu fazia o mesmo, era só ver alguém portando um crachá que a minha conduta mudava, minha confiança era maximizada. Como minha faculdade me treinou eu adoro separar as coisas, por isso vou separar os grupos em dois, aqueles criados pela categoria, o do trabalho, do futebol, da família, e o criada pela confiança, dos amigos, dos colegas de faculdade, de escola, de interesses em comum. Desde que eu me demiti do banco que eu não me sinto parte de um clube. Sim, sempre haverá os amigos que me integram no grupo deles, mas esse é pequeno, disperso e de difícil reunião. Além de que não existem vantagens associadas, exceto pela imensa vantagem dos próprios amigos, claro, que é a finalidade desse clube. Eu sinto falta de um clube por categoria, sabe, quando você chega com uma viola nas costas em uma festa e o rapaz que estava tocando antes de você já chega lhe estendendo uma cerveja e perguntando em que você tá trabalhando, aquela identificação instantânea, natural, importante, que te faz se sentir meio especial por se dedicar a algo. Já faz um bom tempo que eu não me dedico a algo em público, algo que os outros veem, as coisas nas quais eu mais me dedico são coisas que, no fim das contas, só eu vou saber apreciar, e o pior de tudo, só eu vou querer apreciar. Meu clube não tem esquina, dos clubes que eu participava eu me sentia feliz pelas roupas, pelo penduricalho no bolso da camisa, pelo olhar de efêmera superioridade, eu nunca me dediquei aos meus clubes, no máximo dedicava meu tempo, nunca minhas sinapses. Das coisas que eu gosto eu faço sozinho e sinceramente eu nunca me imaginei ganhando dinheiro com elas, nunca me imaginei sendo sustentando por mim mesmo, na verdade, nunca me imaginei podendo abrir uma garrafa de qualquer coisa alcoólica na hora em que eu quiser. Nunca pensei que meu clube preferido teria mais do que apenas eu mesmo de integrante. Nunca pensei nessa coisas de clube na verdade, é que o clube, assim como a nacionalidade e a maioria das coisas da vida, você só consegue explicar o que é pelo argumento contrário. Não participar de um clube é não poder falar mal dele, mas participar de um clube não significa que você possa falar mal dele plenamente. E eu percebi qual era meu clube quando eu imprimi meu primeiro extrato pós-demissão e percebi que ele havia me custado alguns centavos de real, que eu tinha que pegar senha como todo mundo, que eu, agora, habitava o mundo real, das pessoas reais, o resto do mundo, cada um com seu clube e eu sem o meu, sem clube, sem fã clube e totalmente sem fé em qualquer coisa.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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