Até o dia em que o cão morreu.

Onze anos de colégio, quatro de universidade. Fiz minha carteira de identidade, meu título de eleitor, meu CPF, abri minha própria conta no banco, fiz carteira de trabalho, registro no INSS. Aulas particulares de inglês, três anos praticando remo, carteira de motorista. Segui o roteiro à risca, desde que nasci. Com o diploma de Letras na mão, viajei dois meses pela Europa, gastando economias que tinha desde a adolescência. Na volta, aluguei um apartamento e saí de casa. O nome disso é inércia. Qual o próximo passo? Vamos lá. Conseguir um emprego e ganhar a vida era continuidade natural desse processo todo. Demorou mais de um ano pra eu perceber que não seria assim. As janelas daquele apartamento eram amplas demais, a vista dos dezessete andares ia demasiado longe. Todos os anos anteriores pareceram uma brincadeira idiota, e não havia nenhuma ideia que me estimulasse pro futuro. Dei aulas de inglês por alguns meses, cheguei a esboçar um projeto de mestrado que não levei adiante, mas com o tempo assumi que naquela fase da minha vida não conseguiria fazer nada. Foi um tanto surpreendente quando encontrei felicidade nisso. Pro meu pai, eu fingia que ainda estava no jogo, mas já tinha desistido. Ele depositava dinheiro pra mim mês depois de mês, e ninguém ousava dar um pio sobre o assunto.

Daniel Galera

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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2 respostas para Até o dia em que o cão morreu.

  1. S disse:

    Você leu um livro que você mesmo escreveu?

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