Lopes – Vol. 12

Era algo meio ilógico pra sair da cabeça de alguém mas, neste caso, era da cabeça de Pedro, nada que seja de fato realmente ilógico pode advir após uma afirmação dessas. E este fato em particular, ao qual daremos atenção aqui, se trata da criação de um jogo, um jogo em princípio, um esporte de fato. É um esporte deveras simples e acessível, que poderia ser jogado por apenas uma pessoa e dentro de seu próprio quarto. Nesse caso essa pessoa era Pedro, e o quarto, era o quarto de Pedro. Pedro ouviu certa vez que para ser considerado esporte uma prática deveria contar com dois requisitos básicos, competição e regras. No caso de Pedro a competição se dava contra ele mesmo, ou seja, era algo como natação, onde você pode praticar só, contra o tempo, ou contra outros competidores nas raias laterais. Numa tarde cinzenta de outono foi oficialmente criado o Lopes, o esporte criado por Pedro. Lopes atendia aos dois requisitos mínimos e era possível de ser praticado por apenas uma pessoa dentro de seu quarto. O jogo consistia em retirar, utilizando apenas os pés, uma esfera felpuda bem parecida com uma bola de tênis, e de fato até hoje todos os registros indicam que nunca algo diferente de uma bola de tênis fora usada, de dentro de um ponto inicial e levá-la, com o menor número de toques possíveis a um ponto final, também denominado meta ou termo. O campo de jogo deveria ser necessariamente não linear e a meta ou termo deveria ter a largura exata de dois raios de uma bola de tênis mais dois centímetros, não havia especificações quanto ao ponto de partida, exceto que este não poderia traçar uma linha reta com a meta sem que houvesse obstáculos entre os dois. Os jogadores deveriam portar calção, camiseta, meias e tênis, sem restrições de cor ou material. Venceria a partida aquele que após cinco tentativas de cada lado conseguisse colocar a bola de tênis dentro da meta com o menor número de toques possível, sendo o tempo critério de desempate. Após algumas horas de treinamento Pedro pensou sobre a inserção de dois obstáculos móveis, basicamente dois blocos do tamanho exato de tijolos, do peso exato de tijolos e que eventualmente poderiam até ser exatamente tijolos. Esses obstáculos seriam colocados em pontos determinados pelo oponente respeitando o fato de não estar a menos de trinta centímetros do ponto de início nem da meta. Uma vez criadas as regras faltava criar um calendário oficial de campeonatos, afinal, Pedro imaginava que a demanda pela prática do esporte seria tamanha que em breve haveria seletivas para os torneios criados por ele. Nunca aconteceram as tais seletivas, existem boatos fortíssimos que nenhum outro jogador de Lopes além de Pedro fora encontrado no mundo, mas mesmo assim ele programou o calendário. Como um jogo de Lopes, quando muito bem intencionado, dura cerca de 20 minutos, os campeonatos inteiros podiam ser disputados em um único dia, portanto as competições eram mensais, devido a facilidade de andamento e também da reunião dos jogadores, que, no caso, era um só. Na primeira semana acontecia a Copa Almenara de Lopes, era um torneio no estilo mata-mata que reunia os 16 melhores jogadores de Lopes nascidos em Minas Gerais. Na segunda semana de cada mês ocorria a Taça São Paulo de Lopes, que reunia os 32 melhores jogadores de Lopes residentes no estado de São Paulo, nesse ponto há quem diga que a regra original era reunir os 32 melhores jogadores nascidos nesse estado, no entanto tal regra impossibilitaria o certame por motivos já explicados. Na terceira semana de cada mês iria ocorrer o Campeonato Brasileiro de Lopes, 24 jogadores residentes no Brasil reunidos em 4 grupos de 6 jogadores cada onde os dois melhores de cada grupo após uma rodada de todos contra todos decidiam quem era o melhor em sistema de mata-mata. Esse era o campeonato mais longo do mês, por vezes durava quase três dias. E na última semana havia a Copa Pedro Lopes de Lopes. Esse torneio era o equivalente ao Campeonato Mundial, jogadores notáveis de todo o planeta eram convidados para o torneio que se realizava por sorteio e sistema mata-mata, o número de competidores era variável, sabe-se, apenas, que na primeira edição haviam oito inscritos. Curiosamente Pedro venceu todos os torneios realizados até hoje.

Após alguns anos, no entanto, para tristeza geral o jogo deixou de ser praticado, alguns atribuem tal fato ao domínio imbatível de seu maior ícone, outros, ao fato de que Pedro simplesmente cresceu, saiu do seu quarto e fez amigos. No entanto existe um relato épico de que, em uma tarde ensolarada, nos idos anos de 2003 ou 2004, houve de fato uma competição que envolvesse mais do que uma pessoa. O registro é de que eram quatro os inscritos além de Pedro. Pedro Paulo Jr., Diego Amorim, Sidnei de Caria e Wilson Peixe também integravam as súmulas da competição. Houve, nesse dia, um jogo épico, uma verdadeira batalha campal. Há que se dizer que nesse momento Pedro havia instituído uma falta que anulava a participação do jogador. Havia um espaço denominado “campo de falta”, caso o jogador deixasse a bola acessar esse campo, ela teria sua tentativa inutilizada e o outro jogador, apenas para cumprir tabela, poderia levar a bola do ponto de início à meta em quantos toques quisesse. O jogo entre Diego Amorim e Wilson Peixe encontrava-se empatado após quatro tentativas para cada lado, Amorim então iniciou sua última tentativa e, num golpe de azar mandou a redonda para o “campo de falta”, desolado, só restava a Amorim aguardar a vez de Peixe. Este iniciou sua tentativa e, a mais aceita dentre as inúmeras explicações que até hoje permeiam o imaginário esportivo, é de que seu excesso de confiança o fez mandar a bola, também, para o campo de falta. A reação no estádio foi catártica, primeiro por que não imaginavam tal reviravolta, e segundo por que a regra não previa tal acontecimento. Após discussões e consultas exaustivas ao livro de regras decidiu-se por uma nova rodada de tentativas, no que Diego Amorim venceu e seguiu adiante na competição. O vencedor do torneio é desconhecido até hoje, mas há vários indícios de que tenha sido Pedro.

campo de lopes

Como podem perceber esse Lócus se chama Lopes, tal ideia, assim como a do conteúdo, é do Rafael Caetano Costa, que é pra quem dedico este post. Esse, inclusive, é o único post que trata inteiramente de fatos reais. E como tal é o último Lócus do ano, saio de férias e se em algum momento eu publicar algum Lócus será uma releitura, avisarei nesse mesmo espaço quando começarem a surgir posts inéditos, como se isso, de fato, fosse importante pra alguém. Forte Abraço!
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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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