Lócus – Vol. 11

Se a sua porta está fechada, e você está se divertindo sozinho dentro da sua casa, por favor, não abra se alguém bater, seja lá quem for.

Giovahnna Ziegler

Quando as pessoas passam pela vida e quando essa passagem dura um tempo suficiente pra sermos alguém de fato, com início e meio pelo menos, temos um cenário onde essa pessoa terá, chutando, uns quatro amigos do colégio, amigos mesmo, que ele poderia levar pra vida inteira. Na vizinhança, se for um bairro residencial, é bem possível que este sujeito hipotético arrebanhe mais uns três amigos. Já temos sete. Suponhamos que seja um rapaz estudioso e ingresse em uma faculdade bacana, não estou falando de administração nem direito, lá não se fazem amigos. Suponhamos que seja, sei lá, história? Talvez biologia, e também descartemos jornalismo. A faculdade é o lugar do estabelecimento da subjetividade, é onde estamos formados e nos formando, creio ser o lugar onde mais teremos novos amigos, uns seis? Treze amigos até então. Não sou supersticioso mas não vamos trabalhar com esse número. Agora o nosso hipotético ser humano consegue um emprego, algo difícil pra um estudante de história, eu sei, mas vamos pensar em um mundo perfeito, onde quem quer trabalhar consegue o tal trabalho. Esse ambiente não suscita muitas amizades, mas mesmo assim sempre tem uns dois que salvam. Chegamos então ao número mágico de quinze amizades arrebanhadas ao longo de, diria, vinte e cinco anos? Isso, que seja. O fato é que por mais que você seja um sujeito anti-social, feio, tiver espinhas, se vestir mal, o universo vai lhe garantir quinze pessoas pra você chamar de amigo, pra sair com você, pra viajar com você, pra responder quando você passar pelas aflições que a vida lhe imprimir, enfim, quinze companheiros atenderão ao chamado quando você resolver assar uma carne, beber algumas cervejas e chamar isso de festa. Pedro tinha, segundo suas contas mais recentes, a bagatela de dois amigos. Dois, e bem recentes. Pedro tem vinte e seis anos e pouco mais que um décimo da quantidade de amigos que o universo devia ter lhe apresentado. O que nos leva a crer que ter amigos não é algo que se relacione com a capacidade do indivíduo de conhecer pessoas novas, essa capacidade faz apenas com que sejamos conhecidos, com que o número de pessoas aceitas em suas redes sociais chegue a níveis estratosféricos, nos cômputos finais, todos temos, mais ou menos, quinze amigos, exceto Pedro. Pedro é um sujeito que nunca fez questão, não que não seja um grande amigo, é, é uma rapaz bondoso, não que ser um canalha não lhe garantisse tais amizades, é possível vislumbrar vários canalhas cercados de amigos, o fato é que Pedro não fazia questão, Pedro se bastava, o universo poderia se resumir à Pedro e um copo. Claro que amigos seriam bem vindos, bem tratados e com certeza, se procurado, Pedro iria lhe apoiar como fosse, o fato é que no universo da amizade impera uma lei da reciprocidade muito forte, onde as pessoas acabam por aconselharem-se não apenas com os amigos de quem mais gostam, mas com os amigos de quem mais confiam, e confiança é fomentada pela confiança. Pedro não sentia necessidade de confiar nas pessoas exatamente por que sabia que nunca iria precisar utilizar essa confiança pra nada. Pedro nunca iria contar segredos, chorar a perda de um amor, clamar por apoio em momentos difíceis. Pedro se resumia a si. Companhia nunca foi critério para que ele fizesse ou deixasse de fazer algo. Pedro dava atenção, mas nunca deu importância às suas amizades. E assim vê que ter um número elevado de amigos, de pessoas de carne e osso que compartilham com ele uma série de sentimentos, é algo que depende da forma como ele mesmo tratava as amizades que tinha. A maioria das pessoas luta contra a geografia e o tempo, Pedro não lutava nem contra a opinião, ao primeiro sinal de confronto Pedro se retirava e voltava a discutir o que quer que fosse consigo mesmo, interação nunca foi seu forte. Mas ainda lhe sobravam dois amigos, passageiros? Talvez. Pedro também acreditava que as pessoas podiam mudar, não sabia se queria, apenas acreditava em tal fato. O que acontece é que de uns tempos pra cá Pedro estava sentindo necessidade de mais relações de carne e osso e não apenas estática e luz. Pedro havia se apaixonado. Seu nome era Patrícia Loiara, cento e noventa e três amigos e quarenta e oito fotos definitivas em seu álbum, definitivas por que foram elas que chamaram a atenção de Pedro, somado às fotos ela era amante do cinema verdade de Jean Rouch, achava que Townshend era melhor que Clapton e torcia pelo Boston Red Sox, fato último que, agregado aos outros fez Pedro sentir uma pontada inédita em seu coração e perceber que aquilo, de fato, era amor. Esse ato puro de voyeurismo de Pedro havia lhe deixado intrigado, como pode alguém sentir tal furor romântico por alguém que nunca viu na vida, que nunca sentiu o cheiro, que nunca trocou uma palavra, um toque? Como pode alguém amar outra pessoa que nem sonha ser amada por Pedro. Isso o tirava de sintonia, se era errado não sabia, apenas era estranho e triste, principalmente pelo fato de Pedro saber que ela não era uma celebridade mas muito dificilmente ele a iria conhecer, não sabia nem onde ela morava, quais lugares frequentava, como preferia o café. Pedro relegou essas informações ao segundo plano, a única informação que importava no momento era a de que Pedro a amava e ele sabia disso. Amava de forma pura, bonita. Amava. Desde que a “conheceu” Pedro então passou a se sentir mal por ter dois amigos apenas, por não dar o devido valor às amizades que atravessaram sua vida, Pedro chegou até a cogitar se alguém, algum dia, o havia amado secretamente e ele, pela sua distância, tinha suprimido tal sentimento. Pedro viu que não sabia de nada daquilo que havia causado nos outros, para Pedro a vida das pessoas simplesmente continua, com ou sem ele, essa não era uma questão que lhe importava, mas nesse momento Pedro viu que era a sua vida que não podia continuar, não enquanto Patrícia também o conhecesse, tomassem juntos um sorvete, discutissem os rumos da política revolucionário e por fim, descobrissem se iriam cada um pra sua casa ou juntos pra cama. Se havia amor correspondido ou apenas projeção. Talvez não devamos culpar Pedro por não querer sair de sua fortaleza psicológica, ela é confortável, e o conforto é o fim da vida humana, mas acho que podemos culpar Pedro por não se importar com o conforto alheio, concretizado ou não, Pedro deveria garantir que havia feito de tudo para que as pessoas não o tivessem atravessado na garganta. A tristeza das pessoas pode influencia muito mais as coisas do que apenas elas mesmas, pode influenciar o cosmos inteiro e apesar de ele ser grande e nós muito pequenos, apesar de ele ser abstrato e nós bem objetivos, o universo conversa conosco, brinca conosco, é irônico, lacônico, expansivo, sabe o que quer, adora se divertir e joga com as pessoas, Pedro até então nunca havia se disposto a jogar com o universo, e agora, que chamava o universo pra uma partidinha apenas, este, como um amigo birrento, lhe virava as costas e dizia: agora também não quero.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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Uma resposta para Lócus – Vol. 11

  1. Antonio Pereira Lopes disse:

    Essa Giovahnna é uma tremenda duma egoista, isso sim!

    Amigos se faz em qualquer lugar, em qualquer tempo e em qualquer situação, mas a tarefa é das mais árduas, pois requer uma pitada de muita coisa boa e o coração tem que estar totalmente aberto para tal empreitada!

    “Amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui…”

    Imagino que a tristeza é um cancer em desenvolvimento, um verdadeiro caos na vidas das pessoas e deveria ser definitivamente banida dos cardápios de cada um!

    Às vezes fechamos os olhos, viramos as costas e não sentimos a presença de uma pessoa que poderia ser nosso amigo, isso é uma coisa natural na vida e temos que trabalhar para que isso nao nos prive de boas convivências!

    O seu personagem sofre no teclado do seu computador, mas vive e vive intensamente, pois descobre o perfeito sentido das coisas, a ausência de situações, a visão de um mundo corrompido e dilacerado e sente que apesar de tudo a vida é bela e vale a pena!

    Grande beijo!

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