Lócus – Vol. 10

Eu tentei. Eu desisti. Eu tentei. Eu desisti. Eu tentei de novo, e eu desisto. De novo. Dessa vez o pra sempre vai durar.

Bárbara Roehniss

Pedro havia desmaiado novamente, tudo isso devido ao fato de tentar ouvir pela segunda vez na vida uma certa música que o havia deixado paranoico sete anos antes, assim como dessa vez, na primeira tentativa Pedro não havia conseguido ouvir a música inteira, em grande parte por que a música tinha exatos 43 minutos, mas principalmente por que a música em questão tinha a peculiar característica de provocar desmaios em seus ouvintes, e foi exatamente o que ocorreu, na sua segunda tentativa Pedro havia desmaiado novamente. A música em questão chama-se As Long As Possible, da banda australiana The Heart Attack, que fez muito sucesso na primeira metade dos anos 80. Ela começava bem lenta, era em compasso 18/7 e nada poderia deixar alguém mais confuso do que esse ritmo, principalmente por que no decorrer da música havia leves inserções de cítaras em 4/16 e mellotrons em 3/8 assim como a leitura de poemas de Thomas Chatterton, o que juntos criavam uma melodia que se assemelhava à mistura imprudente de batida de maracujá e cachaça de Minas, ou seja, funcionava como algo que tirava os ouvintes do ar em questão de segundos. Os próprios músicos que a fizeram demoraram 18 anos pra completar a canção. Todas as vezes que eles iam tentar mixar a faixa algo terrivelmente desprazeroso ocorria com algum integrante da banda. Da ultima vez, Steve Sue Salmon, o baixista, sofreu um terrível ataque de pânico assim que os acordes do mellotron se fundiram com as quintas invertidas da guitarra e as oitavas tocadas em uníssono do baixo, segundo físicos nucleares convidados para acompanhar a mixagem da música, a mistura dos compassos recriaram por um instante as condições da criação do universo e a canção chegou a ser cogitada pelos pesquisadores do CERN como objeto de estudo, ideia que foi deixada de lado por ser considerada “muito perigosa”. Somado a isso houve o brutal fracasso em tentar incluir como pano de fundo, em toda a faixa, aquele que os músicos chamam de a décima terceira nota, o silencio, o que fez o engenheiro de som pensar que talvez fosse melhor fazer a música inteira apenas com o décimo terceiro som, ideia prontamente descartada já que parecia fazer com que se abrisse mão de boa parte da técnica dos músicos e também por que já tinha sido realizada anteriormente e isso tornaria tal música um plágio. A primeira vez que Pedro havia ouvido a música fora por completo acidente, Pedro pensava se tratar de mais um álbum do Jethro Tull e só percebeu o equívoco quando as primeiras notas da cítara foram ouvidas, percebendo o engano Pedro não desligou o aparelho nem seguiu com sua vida, foi vencido, de forma estúpida nesse caso, pela curiosidade e esperou a agulha chegar ao fim do LP. Logo antes de virar o vinil Pedro aparentava sinais de cansaço e enfraquecimento, não tentava mais compreender quantos instrumentos estavam sendo tocados ao mesmo tempo tampouco se concentrava em compreender o sentido da letra, até por que tal faixa era cantada em inglês, francês aramaico e russo, o que tornava tal fato um exercício demasiadamente penoso pra quem mal falava inglês de colégio. Na metade do lado b Pedro desfaleceu, não aguentou o tranco e precisou ser socorrido. Segundo os médicos, mais alguns instantes de demora pra se chegar ao hospital e Pedro não teria resistido à canção. Durante os sete anos que separaram as duas audições Pedro se dedicou fortemente à sua preparação musical, não que ele tivesse intenções de ouvir novamente a música que quase havia lhe tirado a vida, mas queria estar preparado caso precisasse se meter em mais alguma coisa que ele não soubesse o que era. Música, como Pedro bem percebeu, trata-se sempre da mesma coisa, notas organizadas pela subjetividade, e é exatamente por isso que é sempre diferente de tudo já experimentado. Por ser, teoricamente algo curto e prazeroso, as pessoas, e nelas incluímos Pedro, tendem a ouvir repetidamente uma certa canção, fato perfeitamente explicável pela evolução, o que não se explica foi a repentina ambição de Pedro em tentar compreender a música que foi motivo de sua síncope sete anos antes. Talvez Pedro quisesse provar algo ao mundo, ou a si mesmo, já que o mundo não ligava para Pedro, talvez fosse uma meta de vida que se clarificou com o tempo em sua mente ou talvez fosse a simples burrice de tentar desafiar os instintos. Pedro não se conteve e, como já sabemos, resolveu ouvir novamente As Long As Possible. Devido aos anos de preparo ou talvez ao seu temperamento um pouco mais maduro, Pedro começou a sentir tonturas apenas aos 34 minutos de música, mas então o amadurecimento se mostrou incompleto e ao invés de abortar a missão Pedro segurou a respiração e continuou. Infelizmente ele não estava preparado para o solo de dois pianos feitos simultaneamente e apenas com notas sustenidas, o que em combinação com o ribombar dos tambores de pele de coelho e o coral de duzentas vozes causou o frisson que pegou Pedro de surpresa e roubou seus sentidos novamente. Mas dessa vez o rapaz havia se preparado e na sala ao lado havia um voluntário que desligou remotamente o aparelho de som e levou Pedro ao hospital mais próximo. Após acordar cercado por médicos e enfermeiras Pedro ficou triste por estar vivo, afinal, se tivesse morrido não precisaria ver a pena e compaixão estampadas nos olhos das pessoas, não veria nada, aliás. Após algumas horas de reflexão e um prato de sopa do hospital, Pedro percebeu que estava brincando consigo mesmo de um jogo que sequer fora inventado por ele e tomou uma decisão radical, decidiu que o máximo de música que ouviria seria o som de guitarras limpas solando em pentatonica. Ouvindo o ricochetear de tal pensamento em seu cérebro Pedro percebeu que tal decisão lhe deixaria com sérias restrições musicais qualitativas e decidiu abandonar por completo a música, hoje vive apenas pela vontade sublimada e de cuidar de um jardim de helicônias.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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