Lócus – Vol. 9

Olá, meu nome é Pedro, eu tenho vinte e seis anos, sou filho único, não fui mimado, não tive déficit de atenção na minha infância, não enfrentei problemas financeiros ou sociais, não uso drogas, não sou alcoólatra, não tenho nenhum tipo de vício grave, meu único problema é que eu não consigo conviver com a palavra “não”, e vocês podem pensar que isso é bom por que se eu não posso ouvi-la eu faço de tudo pra sempre ouvir um sim. Pois bem, acontece que pra mim a dúvida é melhor que a certeza do “não”, logo, eu nunca pergunto, nunca corro atrás, nunca sou vencido pela dúvida, antes de perguntar e ouvir um “não” eu espero que me perguntem pra que eu possa dizer “sim”, por que também eu não consigo responder “não” pra nada, isso faz com que quando eu quero dizer “não” eu simplesmente suma da face da terra, morro de medo de ser visto, questionado com os olhos e com os meus olhos ter que lançar um olhar negativo. É uma vida complicada, difícil, de uns tempos pra cá eu consegui mudar um pouco, ainda não consigo ouvir um “não” sem que isso faça com que eu fique sem sair de casa por algumas semanas, atordoado com o que o mundo pode fazer comigo. Mas eu consegui dizer alguns “nãos”, todavia esses “nãos” sempre tem que ser acompanhados de grandes justificativas tão bem elaboradas que até mesmo a verdade seria demasiado mesquinha pra se sustentar. Portanto eu acabo criando uma teia imensa só pra sustentar uma palavrinha ridícula de três letras, o fato é que com o tempo você vai treinando e se especializando em dizer “não”, portanto fica fácil criar essas teias, cada vez mais intrincadas e até interligadas. Mas houve um dia que me deu esperança, era uma tarde ensolarada, estava no Metrô, uma puta fila quilométrica pra comprar o bilhete, eu havia vencido tal fila e depois de quarenta minutos, quando faltavam umas cinco pessoas pra eu ser atendido surgiu um indivíduo, não sei de onde, não sei como e me pediu para que eu comprasse seu ticket, em exatos 0,57 segundos eu pensei em alguma desculpa mas o desespero foi maior e exatamente 1,23 segundos após a pergunta eu disse “não”. Só isso, um “não” sem explicações, sem questionamentos, sem traumas, eu disse não e aquele problema virou as costas e foi embora da minha vida. Eu preciso fazer isso mais vezes, mas enfim, o que de fato me perturba é ouvir o “não”. Para tal uso a tática de rodear o meu alvo, corteja-lo demonstrando desinteresse ou um interesse muito pequeno até que o alvo se ofereça a mim, como vocês podem imaginar isso raramente ocorre. Na maioria das vezes o que ocorre é que eu não demonstro interesse algum por nada e esse nada some, séculos depois eu descubro, de uma forma qualquer que havia algum de interesse do alvo em mim. Eu posso citar o meu antigo emprego, não que eu gostasse dele mas nunca é ruim tentar um outro cargo melhor, mais bem remunerado, e o que ocorria é que por medo de ser preterido eu não me candidatava a nenhuma vaga. O fato é que no mundo corporativo só existe a vontade manifestada, por mais que você seja o melhor no que faça, não que eu fosse, que fique claro, mas por mais que você seja o melhor, você tem que demonstrar interesse… em tudo, e isso é muito irritante, é claro, além de ser complicado lidar com esse mundo não conseguindo ouvir um “não”. Mas nada é pior do que as relações humanas, e eu não falo só em tentar beijar ou pedir uma garota em namoro, isso eu simplesmente não faço, não dá. Eu falo em simplesmente colocar dois pedaços de carne em uma grelha, comprar seis garrafas de cerveja e chamar mais dois amigos pra compartilha-las, isso é complicado, é muito difícil pensar nisso tudo e ainda viver com o fantasma do “não”, mesmo que eu saiba que se todos negassem bebida e comida de graça eu poderia simplesmente comer tudo, me embriagar e esquecer os problemas, mas o fato é que o efeito do álcool é temporário, sempre haverá ressaca, sempre voltaremos a pensar em coisas do passado tempo suficiente pra machucar bastante antes de essas coisas de fato sumirem. É complicado pensar no efeito duradouro das coisas, seria mais fácil se eu pudesse dormir entre os “nãos”, mas o fato é que simplesmente não posso, eu tenho que conviver com essa frustração, com essa falta de amor próprio, de auto-estima. Isso faz com que desistamos das coisas, de fazer festas, de namorar, de correr riscos, do frisson. Toda vez que eu percebo que o universo está pronto pra me negar alguma coisa eu me fecho dentro do meu cérebro, me refugio em algum tipo de sentimento minimamente bom, eu simplesmente desisto de lutar contra o cosmo. Enfim, eu tenho um problema e quero saber como eu faço para resolvê-lo.

Nesse dia Pedro descobriu que grupos de ajuda não servem pra nada.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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2 respostas para Lócus – Vol. 9

  1. ANTONIO PEREIRA LOPES disse:

    Meu querido Pedrinho,

    Na verdade sempre te achei “encolhido”, mas, pela distância, pela falta de convivência, eu não sabia da profundidade do problema… senti-me entristecido, pois se eu pudesse eu o ajudaria o tanto quanto fosse necessário e dentro das minhas condições… a sua narrativa é muito sincera, muito eloquente, muito envolvente e explica com muita clareza um fato… mas fico numa dúvida danada: será que ele ta falando dele mesmo, ou é só mais um personagem? Grande abraço, um grande beijo e que Deus te abençoe!

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