Lócus – Vol. 8

Ao abrir a cortina Pedro viu aquele céu azul escuro, típico de um amanhecer nublado, daqueles que indicam um dia frio e custoso. Aqueles primeiros raios iluminavam um aroma matinal típico, Pedro pode sentir notas de relva sobre tijolos, cimento novo, casca de laranja e um pouco de frutas cítricas. Essa era uma forma de ver o dia, uma forma não pessimista, tampouco otimista, era apenas uma forma, uma outra, diferente, que privilegiasse os sentidos talvez, a questão era saber se os sentidos tinham algum controle lógico, condicionado. Sempre que Pedro se dava a meter o nariz em uma taça de Zinfandel ou Riesling sempre sentia mais aromas depois que lia o contra-rótulo da garrafa que guardava o líquido, mas o fato é que antes de ler ele sentia algo, algo próprio, algo seu, subjetivo, algo que fazia aquela garrafa de vinho ser uma garrafa de vinho somente por que ela se completava no nariz de Pedro, anos de dedicação do enólogo agora podiam não fazer muito sentido por que aquela lima da pérsia era uma sensação organoléptica detectada por Pedro, naquela garrafa, Pedro e a garrafa, só. E uma garrafa é algo subjetivo, que tem personalidade, que tem sensibilidade por todos os lados, dentro de todos os gostos, é algo que se completa na visão, ou sensação de outrem; é a garrafa de vinho uma arte? Pedro sentiu-se diante de uma pergunta tempestuosa, não muito dada a ser respondida nem mesmo bem interpretada, se a arte é o mundo visto através da sensibilidade, o que então podemos chamar, aliás, chamar não, o que podemos interpretar como arte, o que podemos interpretar como boa arte então? Pedro se sentia confuso por pensar a respeito de tais coisas. Aquela garrafa em suas mãos, assim como aquela manhã que abriu seu dia tinha as rodas de uma Ferrari recém construída, o motor de um Learjet, o rebuscamento de um Rembrandt, a delicadeza de um prato do El Buli, a beleza de um García Marquez. Tinha arte, seja lá o que isso queira dizer. Além de todas essas características havia algo mais que transformava aquele suco fermentado de uva em um pouco mais que um suco fermentado de uva, ela tinha a capacidade de incomodar e de acalmar. Beber um Merlot fora de sua época pode ser uma experiência bem desagradável, pode suscitar brabeza, repúdio, angústia, dor, lágrimas, pode ser o fim de um filme político ou de uma novela shakespeariana, por outro lado degustar um Pinot Noir no momento certo pode levar alguém ao clímax, ao céu, pode ser a perfeita definição do que estamos fazendo nesse mundo, pode ser o sentido da vida de alguém, pode ser o sublime momento onde alguém descobre algo que realmente valha a pena. Beber é sociabilizar, ainda que só, ainda que com pessoas que você já conheça, é discutir, uma taça nunca é acompanhada de condescendência, ela sempre vem seguida de proposições acerca de sua suprema interpretação, de uma reflexão profunda sobre as menores e as maiores coisas da vida, vem junto com as opiniões, com as revelações. Pedro nunca terminou uma taça sem depois não terminar uma discussão, alguma conclusão deveria ser alcançada, todos os aromas e sensações deveriam ser desvendados, o custo benefício deveria ser definido e mesmo que no fim Pedro soubesse que a conclusão era a de que não havia acordo era sabido que um alvo fora cortejado, depois dessas discussões com propósitos a sensação de colocar os cérebros pra funcionar muito mais do que o álcool que percorre neles faz com que outras discussões, essas muito mais livres e menos necessitadas de uma finalidade, começam a rondar a mesa, a cortejar os participantes da empreitada enofílica como qualquer tipo de manifestação sensível permeada com pitadas de pura razão. As discussões são interdisciplinares de uma forma que imita a própria degustação que se dá na mesa. Vinho não é cerveja, não se bebe por beber na beira da piscina ou em dia de calor, vinho pede comida, Pedro não vê nada que abra melhor o apetite do que o barulho agudo da rolha abandonando o gargalo da garrafa. Brancos com carnes brancas, tintos fracos com carnes leves, tintos fortes com carnes de caça, espumante com feijoada, australianos com queijos fortes, gewurztraminer com tortas doces, fortificados como aperitivos e late harvest com sobremesas, existe uma definição meio básica no mundo do vinho que ninguém faz questão de desafiar, queira ou não sempre se acredita que a França é o melhor produtor do mundo e isso nunca vai mudar, Beatles é a melhor banda de rock do mundo e isso nunca vai mudar, daí percebe-se o conservadorismo que permeia a enologia, a construção de certos cânones, mas Pedro acredita que como em qualquer lugar do mundo esse tipo de colocação deve ser sempre desafiada, não liga e bebe chardonay com peru e em alguns momentos isso pode ser surpreendentemente incrível, acima de tudo Pedro vê que em alguns momentos essas afirmações catedráticas e canônicas servem apenas pra traçar um outro parâmetro que existe no mundo do vinho como em qualquer outra arte, o preço, Pedro nunca pagou mais que um certo pequeno valor por uma garrafa, mas sabe que uma garrafa pode chegar à casa dos seis dígitos, assim como uma série de quadros, assim como uma série de salários, assim como a série de eventos que subvertem algo que deveria ser tratado como corriqueiro. Pedro imagina o tempo inteiro que a maioria das pessoas que ele admira na verdade não existem, são deuses, são deuses produzidos em escala, assim como os Petrus, Ornelaias e Vega Sicílias, em escala bem pequena, contingenciada. No entanto a forma que chegamos a essa supervalorização dessas marcas artísticas, e digo marcas pois sempre existiu código de barras em cd’s e lp’s, prova de que por mais bela que seja a capa do Atom Heart Mother há uma série de linhas brancas e pretas no encarte; enfim, essa supervalorização se dá por que desde tempos longínquos sempre queremos premiar os melhores, decretar um melhor, é bem possível decretar a melhor produção de vinho, assim como o melhor editor ou diretor de fotografia de um filme, mas Pedro sabe do que gosta, não precisa que ninguém lhe diga isso, e ser o melhor produtor de vinho não significa fazer o melhor vinho, significa fazer um vinho sem defeitos, e dentre os milhares de vinhos sem defeitos que existem, milhares de paladares serão agradados, cada qual com sua arte. O senso comum cria certos paradigmas, Pedro acorda todos os dias com a sensação de que seu futuro já está pré-determinado antes mesmo de ele sair da cama, seus gostos, suas vontades, seus anseios, suas diversões, todos eles vem dentro da embalagem do pó de café, sua única liberdade esta debaixo de seu nariz, desprendendo do mundo, da taça.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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2 respostas para Lócus – Vol. 8

  1. ANTONIO PEREIRA LOPES disse:

    … buscou-se definir uma parte do Pedro, mas se a percepção nao for acurada tem se uma linda aula sobre vinhos! Valeu muito a pena pelos dois lados! Gostei muito de ler e pode ter certeza, as interpretações nem sempre serão aquelas que você gostaria que fosse! Grande abraço, meu querido!

  2. Sabe tio Tonão, é bem por aí, camadas de compreensão, que cada um compreenda o que quiser e isso não é ruim, só é diferente! Ma o sr. compreendeu muito bem, teve percepção acurada, chegou no amago da coisa e posso dizer, está aí alguém que sabe das coisas!!!

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