Lócus – Vol. 7

Eu achava que eu era eu mesmo mas não era, era um dissimulado, inconscientemente dissimulado, errático, moribundo, alguém que não entende o verdadeiro significado de compreender, de cooperar. Sabe qual a relação entre signo e significado? Nenhuma. Ambos não guardam nenhuma relação entre si, não se completam, não se correspondem. Signo e significado só tem relação com o autor, e dessa forma indireta talvez tenham algum tipo de conversa, mas, pra todos os efeitos, não tem nada de um que more no outro. Um não se completa no outro, não se define no outro, não serão felizes para sempre, nem juntos nem separados, não serão convidados a nada, não serão celebrados e tudo o que eles querem é que ao vê-los saibamos qual é sua função principal, não suas relações, mas sua finalidade, a coisa que define a criatura, a coisa dita pelo criador. São tantas imagens, sons, passos subindo escadas, roupas caindo, roupas vestindo, roupas caindo de novo, luzes, falas, impressões fortes, um filme que acaba impreterivelmente na hora certa, isso tudo faz muito bem, mas isso tudo cansa, pede que se esqueça, que se desligue, que se desfaça, que se prometa. Numa metalinguagem universal chegamos ao ponto de achar que as coisas vão e vem, que somos plenos pelo menos no terreno em que achamos que somos, mas não, de forma alguma, sempre tem alguém, geralmente um sujeito inteligente, esclarecido, bem apessoado, bem nutrido, detentor de cousas mil, coisas lindas, bem soadas, enfim, alguém perfeito pra nos mostrar o quão idiota somos. E Pedro? Pergunta o impaciente leitor. Pedro pode estar em qualquer lugar aí, qualquer um, Pedro sente isso tudo, antes de todos sente tudo, dores agudas na base do crânio, dores hercúleas na base do âmago. Não sente, sinta, pedia a qualquer um, deixe de ser tão racional, tão performático, tão meticuloso, apenas sinta, que sejam dores, odores, odisseias de um dia, ditados ditos em dissonância, que seja qualquer coisa, um, dois reais ou doze, quem se importa? A abstração que define certas palavras é tanta que não sobra espaço pra objetividades, e de que adianta usar palavras assim? De que adianta fingir que tem jeito, que tem cura, que tem destino? As roupas que vestimos são apenas marcas de um caráter fabricado, texto é coisa de amador, quem de fato sabe o que quer vai lá e faz, não fica falando, dizendo que é, que um dia vai morrer de qualquer jeito, assim ou na ponte, na ponta. Pedro fala, fala, fala, todo mundo escuta e ninguém dá atenção, Pedro ouve, ouve, ouve, replica e ninguém leva a sério, isso é por que Pedro não lê, é diletante, só isso, não tem consciência nenhuma de nada, Pedro houve rock achando que é bossa nova, ouve garota de Ipanema e acha que se trata de uma calçada, Pedro se vangloria de que se vejam nas roupas que veste a sua presença planetária, a massificação da subjetividade. Pedro é humano, assim na terra como no céu Pedro é só mais um humano que ambiciona uma bem aventurada vida de biscoitos, leite e cafuné, e no frio sexo, sopa e cobertor, capuz e filme antigo na TV. Pedro sonha em gastar em libras mas no máximo leva um cruzado e acorda sem saber onde, tonto, torto, batendo com os dedos sujos nas teclas negras, numa ordem que com certeza, um dia, irão aparecer de novo, na cabeça de qualquer um, na mão de qualquer um, basta que queira, que não aja, mas que queira de verdade, que se entedie, e assim se deixe ser novamente um autor digno de por ordem em signos e de criar significados, e que talvez esse signos transpassem o significado corretamente dessa vez, que eles sejam aquilo que o autor quer, algo muito mais complexo e não palpável do que o que o signo exprime, algo muito mais inteligente e profundo que a tinta no papel digital, algo que talvez valha a pena ler de vez em quando, mas só de vez em quando que ninguém é de ferro, na maioria das vezes continuamos lendo o nome do autor mesmo, a escola de apreciação, a beleza de se conhecer bem quem escreve. Pedro foi dormir achando que tinha estourado uma veia, que iria passar mal e implorar por uma ambulância a qualquer hora, que Deus em pessoa tinha vindo lhe castigar por sua petulância, sua fleuma, na verdade o problema não havia sido as dezenas de litro de cerveja, o problema foi aquela caipirinha depois da feijoada, ela que matou o dia, derrubou Pedro antes mesmo de Pedro tombar, pediu para que se fechassem as cortinas e rasgou quatro ingressos de cinema como quem rasga um bilhete de amor antigo.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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2 respostas para Lócus – Vol. 7

  1. Wander disse:

    Signo e significado, a ultima talvez seja mais necessária e sublime também, pena seus efeitos não serem eternos. Hoje, novamente haverá uma caideira.

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