Lócus – Vol. 6

Batiam na parede, os livros voavam, os carrinhos voavam, os lençóis voavam, a TV jazia longe do chão, longe de tudo, o lençol abrigava outra coisa, a estante não abrigava nada, nada era abrigo, a luminária ascendia e acendia aquilo que ninguém queria ver, que devia ser obscuro, que nada tocava nada, tudo era proibido, até pensar que voar seria a solução era proibido. E no meio disso tudo estava Pedro, incrédulo, incorrigível. Como um gigolô da meia noite fazia o que lhe pediam, independente disso lhe garantir amor ou humilhação. Pedro não era nada para aquela gente, era mais um personagem sem nome, daqueles que ficam lá no fundo, se contentam com tudo, abrem a boca sem ouvir palavras, são lindos, estáticos seres sem suspiro. Pedro sente fome, sede, dor de cabeça e mais fome. E nesse tipo de sentimento Pedro se resigna por saber que sua maior dor é por nunca ter levado nada a sério, nunca. Pedro não sabe de nada, é diletante até em respirar, respira com dificuldade, age com dificuldade, nunca soube de fato se era aquilo o que queria, independente do que fosse aquilo, Pedro não queria padrões, queria ter agido, queria ter se esforçado, queria ter sentido que os parabéns que recebia eram pra valer, Pedro queria se sentir realizado, feliz, burguês. Pedro queria ter sobrenome, queria que fosse publicado, queria que fosse enciumado, mas de nada adianta a vontade de alguém que foge aos padrões. Pedro pressentiu, alias, pressentiu não, sentiu, realizou que nada do que fizera, do que sentira, era de fato algo concreto, Pedro nunca havia realizado nada, nunca havia feito nada de útil, nunca tinha dado um passo sequer em direção àquilo que desejava, ele nem sabia o que ele desejava, ele não sabia de nada, no máximo era um sujeito de convicções fracas que as vendia à primeira proposta que ouvisse, uma qualquer. Ele não tinha interesses, coração, ambição, e essa era, de fato, a sua melhor qualidade. Quando Pedro foi amado fingia que amava de volta, fingia que era Philía, era Eros. Na verdade, ele descobriu que aquilo ao qual chamava amor era na verdade uma torpe vontade de ser visto. Quando se ama, espera-se ser amado, no mínimo espera ser respeitado, espera ser celebrado. Pedro não queria nada disso, não que fosse santo, óbvio que queria algo, mas o que Pedro queria era ser prioritário, o amor, meus caros, só tem como resposta equivalente a prioridade, não a reciprocidade, não a fidelidade, não a sinceridade, só a prioridade, a sensação de que antes de qualquer um há você, mas só pras coisas mais importantes, e gradação de importância varia de ser para ser, de eu pra você. Por isso que as mães mentem para os filhos, bixo papão não existe, nem papai Noel, nem coelho da páscoa e nem deus. São todas fábulas pra nos fazerem crer que o que nos destrói não é o nosso ego, é algo exterior, algo que não nos pertence, e assim nos imaculamos, nos sentimos únicos, nos preparamos pra algo que nunca vai acontecer, e essa é uma armadilha evolutiva, mais uma, se preparar pra algo que nunca vai acontecer é viver pra sempre se defendendo de algo que não existe, é um sentido lúdico, sem questionar, sem se tratar, apenas brigando, se ludibriando pra sempre, sempre. Pedro se sentia como alguém que nunca havia visto algo que de fato importava, era um rapaz zeloso, incorruptível. Era capaz de brigar pelos direitos de alguém que ele sequer conhecia. Era alguém divino. Mas era também, por hora, um misantropo, um sujeito sem linha, sem escopo possível pra querer ser o que era. Era ilógico, se encantava com cada coisa, com quadros, com livros, com música. As músicas lhe socavam os pulmões, perdia o ar. Ao ouvir uma música realmente bela Pedro perdia o ar e pensava em algo mais, algo que lhe trouxesse o ar de volta, qualquer coisa que fosse. A beleza era inaudível, era sensível, fazia parte de outro contexto, de outro cais. Algumas coisas que ouvia eram tão bonitas que Pedro ouvia e visualizava em sua mente uma vagina. Não alguma que ele tivesse visto de fato, alguma que lhe lembrava a beleza, a alegria, alguma que de fato fosse perfeita, lhaníssima, imaculada, feminina; sem a vontade do toque, do calor. A contemplação lhe bastava, Pedro era olhos e pulmões. O coração nunca disse nada, quem diz é o pulmão que acelera ou retrai de acordo com a corrente sanguínea, o coração é uma mera peça em uma engrenagem como qualquer outra, o corpo humano é a experiência do socialismo, mas o cérebro é Stalin, e é por isso que nunca damos certo, sempre somos vítimas da nossa própria vontade, da nossa própria complexidade, do nosso próprio corpo, o todo sempre vence, a vida sempre perde e os sonhos sempre vão pra onde não há nada mais que juventude, energia, subjetividade e nenhuma conta pra pagar.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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Uma resposta para Lócus – Vol. 6

  1. Isabel disse:

    “o corpo humano é a experiência do socialismo, mas o cérebro é Stalin, e é por isso que nunca damos certo”. Ótima resposta para de para onde vão os sonhos! Talvez se os sonhos ainda permeassem as mentes humanas, independente do tempo em que se encontram os corpos, poderiamos dar certo. Ou talvez essa seja apenas uma reflexão de quem (ainda) não tem contas a pagar. Só espero que o amor seja mais do que prioriadade.

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