Lócus – Vol. 5

Pedro andava ladeado por seu pai, e apesar de já ter deixado a adolescência a alguns anos, a sensação que tinha era a de ser uma criança novamente. Andavam numa tarde pesada, que tinha aquele tom cinza das tardes frias, fato confirmado pelos agasalhos que vestiam, tanto Pedro como seu pai usavam jaquetas pesadas, calças e tênis. Dirigiam-se ao cemitério onde Pedro visitaria pela primeira vez o tumulo de sua mãe, esta seria apenas a primeira vez, durante o enterro Pedro não conseguiu acompanhar seu pai, que provavelmente naquele momento derradeiro deve ter jogado o primeiro punhado de terra sozinho, Pedro se acovardou e ficou em casa deitado na cama onde seu pai e sua mãe dormiam, cerrando os dentes o máximo possível pra não chorar. Apesar de imaginar que havia alguém acompanhando Pedro, pois é difícil acreditar que lhe deixariam naquele estado sozinho, ele sempre tivera a sensação de estar só naquela cama enorme e naquela casa pequena. No caminho do cemitério, que percorreram a pé, sentia-se normal, sem aquela tristeza alucinante que o acometeu tempos atrás, quando do enterro. Chegaram a porta da necrópole e por mais estranho que isso possa parecer, foi necessário pagar para entrar, havia duas portarias, e Pedro se dirigiu àquela onde ele e seu meu pai pagaram dois reais e cinquenta centavos cada, na catraca haviam alguns envelopes dentro de uma caixa pequena de cerejeira, aquele onde estava escrito o nome de Pedro era o mais grosso deles, era um envelope de papel pardo dobrado ao meio e que continha, pela aparência, inúmeras folhas, seu pai recebeu o envelope das mãos do porteiro e enquanto ele conferia o conteúdo do mesmo Pedro olhava o grande jardim feito de grama e granito que se estendia a sua frente, talvez apreciando ou talvez começando a cair em si olhou para os lados e viu que a entrada era pequena e se resumia a uma catraca com salas posicionadas dos dois lados, salas que repetiam e se estendiam ao redor de todo o cemitério, que não era grande, a sensação que Pedro teve ao entrar foi de certa claustrofobia, quanto ao envelope que seu pai recebeu, Pedro não conheceu seu conteúdo, mas parece que não era de muita importância, acontece que Pedro entrou, caminhou com seu pai por alguns metros, não foram muitos, pra dizer a verdade foram bem poucos, é como se o túmulo de sua mãe fosse bem perto da entrada. Quando se deparou, reparar as impressões do local foi a primeira sensação que lhe ocorreu, tinha uma lapide pequena feita de granito cinza, umas poucas flores plantadas a frente e em volta era apenas grama, as flores faziam sentido pois eram uma paixão na vida de sua mãe, e a distancia da lapide até o cimento que formava a calçada que circundava todo o cemitério também era uma distancia curta, de fato sua mãe era pequena, pensou Pedro, mas o fato o deixou curioso, porém não mais que o papel que havia colado na lapide tampando os dizeres gravados nela, no papel eram letras pequenas, por isso Pedro se ajoelhou em frente às flores para poder ler o que estava escrito no bilhete, mas antes que pudesse focar a primeira palavras seus olhos se encheram de lagrimas e Pedro chorou como não fazia a mais de uma década, foi um choro copioso, triste, carregado, como uma barragem que se abria após uma década de estancamento, Pedro não queria mais parar de chorar, o fazia com o corpo inteiro, se curvava sob seu estomago, foi um choro de negação a todo o tempo perdido que havia passado ao lado da pessoa que fora metade do seu motivo de viver, negação a tudo o que deixou de dizer e fazer, a todas as saudades que não sentiu, a todos as raivas que não passou, uma negação pelo comportamento morno que desenvolveu durante toda a sua convivência com sua mãe, foi quando sentiu um abraço, um daqueles acolhedores que seguram pelo cotovelo e te envolvem pelo corpo inteiro, sentiu que era sua mãe lhe abraçando, não percebeu de imediato, mas quando percebeu não foi algo assustador, foi algo normal, de repente se tornou normal o fato de sua mãe lhe abraçar enquanto ele chorava em frente ao seu tumulo, quando começou a retribuir seu abraço e se virava para olhá-la de frente sentiu o tremor e o barulho do seu despertador que lhe avisava que era hora de ir trabalhar, acordou com uma sensação entranha de quem fica sem saber o fim da história, enquanto dirigia refletiu sobre o que havia ocorrido, passou-lhe pela cabeça que não havia olhado pra nenhum rosto, seu pai era mais alto que Pedro e em nenhum momento ele ergueu a cabeça para olhar em seus olhos, sua mãe o abraçou lateralmente e ele estava de cabeça baixa, enquanto seu pai pagava o ingresso para o porteiro, Pedro estava vislumbrado com o enorme jardim. Pedro tinha certeza absoluta de que visitava o tumulo de sua mãe, ele sentiu isso o tempo todo, essa era sua verdade, porém todos os detalhes, o envelope recheado, o bilhete colado na lapide, o choro copioso, o formato do cemitério lembrava sua antiga escola primária, tudo, nesse momento todos os detalhes lhe fazem crer que estava de frente para o seu próprio tumulo.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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