Lócus – Vol. 4

No dia vinte e seis de julho, exatamente ás sete horas e quatro minutos Pedro abriu mão deliberadamente e conscientemente da quantidade antes que ela de completo abandonasse Pedro. O numero de namoradas não enchia uma mão e o de amigos as duas, ou seja, nesse caso Pedro apenas se conformou, nunca haveria de ter demais mesmo. Porém abriu mão de outras quantidades também, abriu mão, por exemplo, de juntar grande quantidade de dinheiro, não que dinheiro não lhe fosse problema, era apenas um problema no qual ele se recusava a pensar. A sua produção artística era criativamente intensa, mas Pedro decidiu dedicar-se de todo em apenas um nicho de interesse, e dentro desse nicho em uma produção delgada e astuta. Por sequência abriu mão da quantidade de absorção, não queria mais ver todos os filmes, nem todas as fotos, nem todas as peças, nem todas as teorias, nem todos os livros, dedicava-se agora a reler os livros que fossem. Desistiu da quantidade de países para aumentar a de cidades, desistiu da quantidade de bandas em nome da quantidade de músicas, renegou a quantidade de roupas em prol das marcas e abriu mão da quantidade de palavras em favor do significado, tarefa esta última que será muito mais fácil em nosso idioma, sabe-se que o português é uma das línguas mais difíceis de se aprender no mundo, o português brasileiro, diga-se, afinal somos, como poucos, especialistas em atribuir significados às frases apenas pela entonação do discurso e somos mestres em querer dizer o contrário do que verbalizamos, bem exemplificado pelo cordial “passa lá em casa depois”. Essa cordialidade também é uma característica nossa, da lhaneza dos trópicos, se Pedro abrisse mão da quantidade de palavras, cria que o poder do significado aumentaria, assim como o poder do nosso ritualismo, que não está no dogma, mas sim na subjetividade, na quebra de protocolo. Pedro abriu mão da quantidade de protocolos a se seguir, abriu mão da quantidade de acertos e de erros, os experimentos vinham como um fim em si mesmos, não como um artefato de compreensão do mundo. Abriu mão da quantidade de pessoas lhe dizendo o quão era bom, assim pode ouvir melhor quando ele disse a si mesmo que era bom. A quantidade lhe cobrava juros, queria frutos, enchia estantes e sobrecarregava a memória. Formulários, estatísticas, votos, preços, tudo isso abandonou a vida de Pedro, e Pedro se lembrou que de vida só tinha uma, pouca quantidade e muita liquidez, pensou ele; boa intuição, resignou-se. Quando tinha controle sobre o que quisesse era algo fenomenal, mas a quantidade de vezes em que isso acontecia era parca, não se preocupou com isso e diminuiu ainda mais a quantidade de preocupações. Pedro foi se fechando, se redimindo, se convertendo a si mesmo, chegou ao ponto de não duvidar mais. Além da quantidade Pedro também abriu mão da visibilidade, não que ele fosse se tornar invisível, as pessoas apenas não olhariam mais pra Pedro, ele não gostava de como as pessoas lhe dirigiam o olhar, de como as pessoas insistiam em completar a vida de Pedro nos pontos onde ela já estava completa, e Pedro sabia que ela estava completa. Decidiu então por revogar às pessoas o direito de lhe olharem. Já que abrira mão da visibilidade Pedro pode mostrar, cantar, recortar, beber e brigar sem que ninguém lhe ofendesse com olhares contemplativos. Pode receber toda a ajuda que quisesse, de quem fosse, pode recorrer a qualquer escrúpulo e pode transitar do conforto ao inferno pessoal sem que precisasse ouvir os despejos empíricos das vidas alheias. Pedro não se ateria à sua casa, ao seu cômodo, não. Ele sairia as ruas, ganharia as praças, a diferença é que agora, ninguém lhe dirigiria o olhar, como que num pacto sagrado com o mundo, dessa forma Pedro pode reviver sua vida, pode frequentar aqueles lugares que lhe faziam falta e que, se não fosse pela falta de visibilidade, fatalmente não seria bem aceito. Pedro começou frequentando sua antiga escola, assistindo as aulas, olhando com lascívia para as garotas do terceiro ano, evitando os lanches de soja da cantina, perambulando pelo pátio na hora do recreio e tardando a voltar pra sala no fim deste, Pedro nunca teve muitos amigos na escola e essa segunda vinda então parecia com a primeira, a sua existência se resumia a si. Na sala de aula Pedro pode rever nuances que lhe passaram despercebidas, pode se deleitar com a galhofa alheia, pode galhofar sem ser repreendido, pode até palpitar sem medo, e como da primeira vez que passou por ali, não foi ouvido. Pedro caminhava pelo seu antigo prédio, sentava-se na calçada para ler antigos livros, reconhecia antigos rostos e como sempre fizera, os ignorou. Pedro foi a sua antiga cidade, comeu e bebeu daquilo que tinha gosto de infância, brincou nos mesmos lugares de antes, sorriu das velhas lembranças e chorou com as velhas dores. Pedro não tinha um relacionamento com a humanidade, até lhe oferecia coisas, coisas belas, terrivelmente sensoriais, e a sociedade respondia de volta não olhando para Pedro ou virando o rosto quando se davam conta de que Pedro lhes oferecia sua imagem. Pensando que nunca deveria dizer algo a menos que tivesse certeza que todos pensassem o mesmo, reduziu-se a zero. Sem quantidade, sem visibilidade e inacabado Pedro se calou e pode finalmente olhar pra frente.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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