Lócus – Vol. 3

Pedro amou pela primeira vez com quatorze anos. Hoje ele tem 26, mora só, não tem ambições, não estuda, não dorme mas continua amando, o que lhe faz crer que esse é o pior problema de sua vida. Por que toda vez que Pedro tentou demonstrar esse amor por alguém, esse alguém tentou demonstrar pra Pedro que o amor é um sentimento subjetivo, viciante e auto-depreciativo. Pedro não é o tipo de pessoa que divide a bolacha recheada em duas e antes de comer a metade com o recheio come a sem o recheio só pra retardar o prazer, ele não gosta de retardar o prazer, muito menos de adiantá-lo. Pedro anda sem muita coisa pra fazer ultimamente, por isso volta e meia para pra pensar e basicamente pensa sobre os motivos que o levaram ao lugar no mundo onde está agora. Pensa sobre o amor, reflete sobre o amor. Para Pedro o amor nada mais é do que uma criação humana, criações humanas nem sempre levam em consideração o instinto humano, criações humanas como a emissão de dióxido de carbono pelos países acabam com o planeta, o que é um contra-senso já que temos apenas esse planeta pra viver. Logo nem sempre a evolução comanda o caminho que estamos seguindo. O lado positivo do amor foi inventado no exato momento em que nossos ancestrais, por um acidente qualquer, ao invés de transarem de quatro, como qualquer animal faria, transaram um de frente pro outro, e no momento do orgasmo se olharam nos olhos, o que fez com que esse ancestral associasse o prazer sentido naquele momento ao seu parceiro inteiro, como uma pessoa, e não só ao seu órgão sexual. Acabara de ser inventado então o lado positivo do amor, o que poucos sabem é que o amor no seu lado negativo sempre existiu, afinal de contas o homem das cavernas ama a sua tribo e mataria qualquer um que tentasse atentar contra ela, na verdade ele não ama nada, só acha que tem maiores chances de sobrevivência em grupo, aliás, isso é o amor! Durante os séculos, então, o amor se formou até chegar ao estado como é hoje, uma coisa feia, ultrajante, que toma as rédeas do pensamento humano pra tentar imprimir uma vontade não natural no filho da puta que insiste em amar. O amor é mais ou menos como uma vontade artificial de ter uma coisa que não existe em detrimento de outras coisas que na sua maioria ele não pode ter. O amor não pertence ao mundo real, linguisticamente podemos perceber que em francês “j’adore” é uma forma mais intensa de dirigir-se do que “j’aime”. Pedro regozijou ao perceber isso. Mas se o amor é ruim por que tanta gente acha que ele é bom? Pedro achou a resposta naquilo que mais amava, o cinema, o amor é visto como bom por que nos filmes as pessoas nunca terminam sozinhas, ou elas morrem ou elas ficam com alguém, e ficam da maneira mais sofrida possível, o que nos faz crer que aquele sentimento horrível que agente sente quando ama é passageiro, mas não é! Ele é tão duradouro quanto o amor durar, por que mesmo que seja correspondido haverá milhões de coisas que vão fazer você sofrer. Apesar de esperarmos, o universo nunca prometeu nada pra ninguém, muito menos pra Pedro, quem promete são as mercadorias em forma de filme e essa descoberta lhe trouxe uma angustia muito grande por saber que o mundo real não tem manual de instruções e como não há manual de instruções Pedro decidiu não o entender por completo, só até onde sua vista alcançar. Enfim, dizíamos que Pedro estava vendo nos filmes o motivo pelo qual as pessoas acham que o amor é bom, a humanidade compra essa idéia junto com o ingresso de cinema, o desejo move os filmes e a vida, mas o desejo se dilui com a sua realização. E afinal de contas essa idéia vende bem qualquer coisa, quando as coisas não dão certo Pedro gasta mais dinheiro em shows de rock, viagens sem sentido e litros de bebidas alcoólicas, ou os três juntos. Amar é anti-evolutivo, Pedro sempre se achou uma evolução da espécie anterior, mas descobriu que a única coisa que ele sabia fazer de diferente da espécie anterior era usar calças e dirigir, coisas que Pedro nem gostava de fazer na verdade, mas precisava, assim como amar. Pedro não queria, sabia que era ruim, sabia o “porque” de ser ruim mas mesmo assim insistia em sentir em algum lugar do seu cérebro um arremedo de amor, e isso o frustrava, principalmente por saber que esse amor não era puro, cristalino. Pedro não era moderno o suficiente para sublimá-lo, portanto seu amor surgia e era acompanhado de um desejo pungente e indissolúvel que não pela realização, um sentimento que só se completava pelo amor e vice versa, Pedro era feio, magro e se vestia mal, o que ajudava na sublimação forçada desse desejo, ou seja, sofrimento, mas esse não era o fator principal, esse fato ia além.

Em uma noite de segunda-feira, em algum lugar do mundo, Pedro estava sentado em uma poltrona velha que o fazia espirrar esporadicamente graças a sua alergia e aos componentes da poltrona que ativavam sua alergia. Pedro, como que despropositadamente, meio que pra passar o tempo, sacou o celular do bolso e dessa vez não quis jogar Tetris, Sudoku ou qualquer um desses joguinhos modorrentos que acompanham os telefones móveis, foi até suas mensagens, decidiu reler algumas, apagar outras, e conservar algumas poucas e boas, a resposta estava em suas mãos, Pedro se deparou com a seguinte mensagem:

“Sabe nunca pensei dizer isso mas fico muito feliz em saber que n sinto mais a sua falta logo n preciso mais d vc.”

Depois de alguns segundo tentando re-entender a mensagem, graças ao seu português muito mal utilizado, relembrou a origem daquele micro texto. Era um antigo caso que Pedro tivera alguns anos antes, com uma garota que ele nem lembrava o nome direito, mas que acabara de forma abrupta e não muito feliz, depois de mais alguns meses de reaproximações assexuadas e troca de solicitações mal atendidas essa mensagem colocou um fim definitivo em qualquer tipo de ambição de Pedro. A vida deveria seguir em frente, muitas desilusões amorosas depois fizeram com que ele se esquecesse dessa mensagem, mas é por causa dela que Pedro ainda ama. O maior problema do amor é que ele sempre acaba mal e a pessoa que diz a palavra final geralmente carrega também a responsabilidade de traumatizar a outra pessoa. Então a relação que termina mal gera a necessidade de outra relação posterior pra apagar as maledicências da anterior, mas nenhuma relação termina bem, e não é Pedro que geralmente termina com as relações, ele tem a péssima mania de insistir mesmo em relações que se apresentam a beira do fim, logo Pedro nunca estaria livre de ter que amar. E foi assim que as coisas seguiram, até mesmo relações que nem sequer haviam começado eram pouco gentis com Pedro e isso deixava uma sensação estranha de que as coisas sempre estavam erradas, fora de lugar. De forma geral Pedro esperava coisas das pessoas e as pessoas esperavam coisas de Pedro que raramente eram compatíveis, nos seus relacionamentos não era diferente, talvez a chave fosse esperar tudo de todos, uma impossibilidade genética, cria Pedro. Apesar de sermos inexoravelmente sociais, nos surpreendemos com o comportamento humano mais primário. Aquelas pessoas que alcançavam a faixa etária de Pedro, e que portanto geralmente se lançavam como candidatos às suas investidas amorosas geralmente tinham de uma forma oposta a visão de Pedro, a idéia de que o sexo era um fim em si mesmo, e que o lençol afetivo que se concretizava com uma relação era penoso demais, portanto pra que amar se a vida apresenta tantas outras possibilidades mais consistentes para investir o tempo, e pra que se preocupar se o desejo habita outra esquina da vida. Essas relações profundas e complexas podem muito bem ser resolvidas com outras relações, mais leves e móveis, assim como aquele telefone que Pedro segurava, um telefone velho, ultrapassado mas que detinha um avanço categórico para a vida humana, não precisava de fio pra ligar.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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Uma resposta para Lócus – Vol. 3

  1. Tiago disse:

    “… o abismo que é pensar em sentir”

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