Lócus – Vol. 2

Pedro acordou preocupado, eram cinco da manhã. Estava arrepiado também, um arrepio tenso, não era frio nem calafrio, era inexplicável. No dia anterior Pedro havia ido a uma casa de lanches. Dessas onde se vende coxinha, empada, quibe, etc. Na beira da estufa Pedro indagou sobre a procedência da empada. Se sua produção era local, sobre o frescor da guloseima, sobre a qualidade da massa, se ela desmanchava na boca com a primeira mordida, também quis saber sobre a procedência do frango diligentemente desfiado e peculiarmente temperado que ornamentava o interior do salgado, indagou sobre a temperatura do acepipe e por fim, após uma série de respostas positivas que soaram como música para seus ouvidos inundados pela fome ordenou à atendente que lhe servisse uma daquelas coradas empadas que, com sorte, ainda viria com uma azeitona sem caroço completando a explosão de sabor que Pedro estava para viver. Após a primeira mordida naquela maça borrachuda e o primeiro saborear daquele frango ressecado e apenas meio morto Pedro teve um momento de profunda decepção seguida de um leve desespero que nem a azeitona sem caroço que habitava o recheio pode refrear. Após tal experiência Pedro sabia que aquelas palavras recém ditas sobre a empada pela atendente eram uma das maiores mentiras que ele já havia ouvido. Um pouco assustado com seus pensamentos quase verbalizados, Pedro, antes de se levantar, percebeu que na verdade havia cometido um engano, a maior mentira que ele havia ouvido fora um “eu te amo”. Como antecipado na oração anterior, Pedro se levantou, se dirigiu à atendente que havia sido tão gentil com suas perguntas e ainda sob o efeito da lei de reciprocidade, cordialmente indagou sobre o estado deprimente da empada. A atendente, ainda se valendo de amabilidade se prontificou a trocar a mercadoria. Pedro se sentiu aliviado, aquele era um bom ser humano que agora trocava seu desagradável alimento. Agradeceu, se sentou, mordeu e teve a decepção de parecer estar em filme de terror de quinta categoria que insistia em repetir o mesmo susto, o problema não era o produto, era o produtor. Ainda sob o efeito da cordialidade alheia Pedro não pensou maledicências sobre a pobre senhora, Pedro a perdoou, sabia que apesar de seus gritantes defeitos no que concerne a seus dotes culinários e sua capacidade de exercer a sinceridade, ela era na verdade uma boa senhora, via-se. Pedro se sentiu bem por ter sido compreensivo com aquela mulher tão displicente e imperfeita exatamente por que chegou a conclusão de que se ele sentiu aquilo por ela certamente alguém poderia sentir o mesmo por ele, talvez até amá-lo. Mesmo que ele tivesse os mesmos e talvez até piores defeitos que ela, mas ele, como ela, devia possuir alguma singularidade digna de reconhecimento, isso o consolou. O fato é que Pedro estava agora acordado e assustado, afinal a noite de sono lhe fizera perceber que ninguém o amava apesar de ele parecer reunir os requisitos para ser digno de despertar tal sentimento. Ninguém dividia esporadicamente com ele aquela cama em que dormia, ninguém lhe contava segredos, ninguém visitava sua casa aos sábados de noite para uma partida de Texas Holdem e ninguém sentava na poltrona em frente a sua pra compartilhar um copo de Baileys ao som de Buddy Guy. Pedro tinha amigos, mas Pedro não tinha companheiros nem uma companheira. Essa, na verdade, era uma das preocupações que o havia acompanhado durante toda a sua frágil existência até aquele momento. Pedro sentou na cama desarrumada e tentou se lembrar de momentos bons ao lado de pessoas boas, vieram-lhe alguns a mente. Poucos, mas bons. Viver em grupo lhe fazia bem, mas só por um tempo. O orgasmo, como bem sabemos, dura poucos segundos. Para Pedro a vida em sociedade era orgástica. Era também só mais uma armadilha evolutiva, mas que não deu certo. Todo aquele seu drama, sua tristeza, não tinha motivo real, logo não tinha solução real. Pedro não era amado não por que não conseguia cooptar tal sentimento, mas por que simplesmente esse sentimento não lhe deixava feliz . A infelicidade apesar de sofrer influencia não é efetivamente definida geneticamente. Alguém triste, realmente triste, que tem essa característica como parte de sua vida não quer de fato muda-la, é possível, ele apenas não quer por que a tristeza pode não ser geneticamente condicionada, mas querer se livrar dela é. Tentar ser mais ou menos feliz era como tentar ser mais ou menos alto para Pedro. Ele chegou a essas conclusões após sentir novos arrepios, estes agora causados pelos goles curtos do seu terceiro copo de whisky da madrugada, quase manhã. O fato é que, no que diz respeito à felicidade podemos enxergar como um livro. Os livros seguem uma tendência, se você gosta de como um autor escreve os dois primeiros capítulos, fatalmente você vai gostar do livro inteiro, caso contrário nem um final excitante vai fazer você mudar de opinião. Pedro se deu conta de que se ele era feliz agora, logo ele seria feliz no futuro também, independente do que acontecesse, assim como sua corrente infelicidade dificilmente seria mudada por qualquer outro aspecto positivo que por ventura lhe ocorresse. Se a evolução havia falhado com Pedro então ele poderia abrir mão de certas coisas. Em outra noite Pedro experimentou uma combinação perigosa quando tentada sozinho, Paço do Conde, pão italiano, Veuve Clicquot e Animals em volume moderado. Após o fim da garrafa, dos pães e do álbum Pedro não correu para o computador, não cogitou andar pelo seu prédio e não ligou a televisão. Ele preparou a cama e foi dormir ouvindo Tame Impala. Logo, se importar com coisas como ser amado não eram mais importantes, talvez ele até precisasse disso, e se fosse amado iria gostar, mas isso não o iria deixar feliz num longo prazo. Tampouco lhe tirava o sono a necessidade de reconhecimento. Não queria mais que as pessoas fossem boas com ele na rua. Noites de sábado passados em casa por falta de convites tornaram-se noites calmas apenas. A transitoriedade das pessoas na vida de Pedro, desde as mais influentes às menos deixou de ser um motivo de angústia. Ter companhia nunca foi um fator condicionante pra vida, exceto no que concerne ao sexo, que é de fato o único desejo humano que se completa em outrem. O único! Se Pedro tivesse percebido isso antes haveria desvendando anteriormente quais foram as maiores mentiras em que ele havia acreditado. Muito antes do “eu te amo” Pedro deveria não ter acreditado no “ame o próximo”. Perceber isso lhe fez crer que até o dia derradeiro a vida iria invariavelmente continuar, mesmo contra sua vontade, e isso é algo sobre o qual ele não pode fazer nada a respeito.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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