Revisitado

Eu não sou orgulho nem princípios, só vontade e raciocínio. No pára-brisa molhado eu vejo borrar a maquiagem da cidade, eu vejo as gotas maltratarem o trânsito e as coisas se tornam lindamente mais feias, eu gosto de coisas bonitas e coisas feias são estranhamente lindas dentro de contexto. Eu gosto de pertencer a alguém ou a algo que valha, mas hoje em dia quem não vale sou eu, sou só e sem seres-humanos, portanto não valho nem pra ser humano, sou rocha, sou promessas, eu sou uma estante de livros não lidos, de discos não ouvidos e de filmes não vistos, eu não sou a mosca que pousará em sua sopa, eu sou pura mansidão, sou água cristalina e eu, definitivamente, não tenho Jesus no coração. Não ouvirão falar de mim, sequer lerão coisas minhas nos jornais, nas bibliotecas ou nos noticiários locais, meu nome não será adjetivo, eu não serei feriado, meu corpo não será visitado e quando minha estadia acabar os rios não se encherão e o transito não ficará caótico. A vida é feita de relacionamentos que nunca darão em nada, especialmente a relação que eu tenho comigo mesmo. Pergunto-me se a vida se resume às experiências que você conta, pois erudição e conhecimento geral são provas de anarquia passional, mas ninguém sai vivo do corpo, seja ele qual for, ninguém sobrevive ao apocalipse, e que ele chegue logo e o anjo da luz me leve pra um lugar melhor onde eu nunca terei existido. Onde minha experiência não fará sentido e minhas habilidades não façam diferença. É tudo confuso, é tudo desculpa pra não dizer o inegável “não gosto”, é tudo racionalmente pensado pra dizer que foi de ultima hora, é tudo transitivo direto e os pronomes “eu” e “tu” serão sempre muito mais importantes e preponderantes que o “nós”. É fácil ser forte quando se sabe onde a bala irá atingir. E o soluço que antecede o choro é como o botão que abre a barragem, e o travesseiro só nos conta mentiras e as mentiras só nos fazem chorar, o chorar nós faz implorar e implorando é que ganhamos distância, ou perdemos proximidade, tanto faz agora, a frase não precisa ser a correta pra se entender o sentido que se quer dar, não depois de tantas linhas de lamentos, agora tanto faz a palavra que se use, elas não são mais espelhos, a essa altura são somente ratificações, já fiz a cabeça de quem chegou até aqui, aqui todos concordam comigo, aqui todos me dão tapinhas nas costas e todos acreditam que vai dar certo, só não sabem todos que não é nada disso que um lunático quer, eu não tenho uma vida inteira, eu tenho vinte e um anos, é tudo que eu tenho e ninguém me garante que será muito mais que isso, só tem poder quem sabe aonde quer chegar, ninguém sabe tudo da vida e se soubessem prefeririam nem ouvir o tiro de largada, de resto só crenças em pessoas e votos depositados em urnas de carne, veias e sangue, acreditem, o amor não vem do coração, ele existe, mas não passa de uma sinapse neuroquímica, e o coração é feio, disforme e nojento, parece uma mão fechada e sem pele, que mantém vivos esses futuros mortos de hoje, essas futuras mentiras de amanhã. Todos mentem, eu não acredito mais em promessas.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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