Divagações Sobre um Diletante na Arte de Ser Solitário

Gritava intermitentemente a mulher a minha frente, cadenciado, bendita hora que assinei o canal erótico. É tarde da noite e só ele, e ela, me fazem companhia. Na solidão do meu apartamento exercito a solidão da minha existência. Exercito a alegria de estar só depois de um dia incrivelmente bem acompanhado. Sou “expert” em dar festas, exatamente por que a melhor coisa que sei fazer é ser coadjuvante, de modo que meus convidados possam transbordar azeitados pelas bebidas que eu forneço. E tem de tudo, para todos os gostos, para todas as ocasiões, e todos bebem e se divertem, é a melhor festa do mundo. A moça a minha frente acaba de ficar nua e ela é tudo o que eu tenho nessa noite. A festa já é passado e, como passado, deveria voltar e acontecer vez ou outra. A pior coisa da festa é saber que no outro dia tem trabalho, ressaca e manhã. É saber que as pessoas simplesmente vão embora, se despedem, agradecem e saem, menos a moça do canal pornô, a hora em que eu quiser ela estará aqui, no momento em que eu ligar a TV ela estará em ação. Na festa os braços erguidos contando decrescentemente antecedem o trago de tequila e a chupada no limão, deleite curto, efeito longo. Uma garrafa em quinze minutos e mais cinco ou seis dias de almoço acabam de morrer. E a felicidade reina. Depois do show sintetizado nos instrumentos que tenho em casa, proporciono um jantar instrumental, utilitarista, que faz preencher a fome de cada um e a minha própria com massa, algum molho e nisso tudo há alguma poesia, há a beleza da confraternização, do calor que subia dos pratos e das cabeças. A vida era incrivelmente curta e os agradecimentos foram maravilhosamente estonteantes, eu agora posso dizer que tenho amigos, mas não necessariamente digo que eles são de agora. São de diferentes datas, mas são ratificados agora, eu os reconheço agora apesar de eles sempre terem existido. É impossível pensar que qualquer coisa no mundo possa durar, desde a fama ao amor, nada disso é eterno, a eternidade não existe, sequer o tempo existe, apesar de senti-los eles não existem, o que nós sentimos são os efeitos dos nossos órgãos parando de funcionar, é a fumaça preta que sai dos canos dos caminhões e se alojam nos brônquios dos nossos pulmões. O tempo é o ritmo da música, é o que decreta o fim do jogo, é o propósito do relógio, o tempo é quanto falta, pode estar a favor, pode estar contra, o tempo é uma puta, como aquela do canal cento e noventa e um, ela continua gritando, só ela me entende mas ela não pode ser minha amiga, amigos ligam dezoito vezes, te acordam, te veneram, não estão preocupados com a resposta quando não há pergunta, são reais, virtuais, sociais, vêem à festa e saem de cena com a mesma finesse que a rainha da Inglaterra recebe seus visitantes. Amigo, festa, prostituta. Tudo junto e um copo de cerveja, uma de cada vez, ora na mesa, ora na sala, enfim na cama, eu saio, ela me chama, a bebida, claro, ela sabe do que falo, conheceu minhas cordas vocais, passeou pela minha corrente sanguínea, cortejou meu cérebro e abriu uma janela nova, e de janelas é que as festas são feitas e as vidas vividas. As garrafas vão pro lixo, as histórias pros livros e o causo, a ressaca, vira prosa na porta da escola, na mesa do restaurante, é a versão de hoje do dia de ontem e assim sucessivamente, paciência e disciplina é tudo o que perdemos em cada noite, além de um pouco de coordenação motora, é claro.

Um pouco modificado esse texto foi ao ar em forma de vídeo em 20 de maio de 2009.              
Anúncios

Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
Esse post foi publicado em Revisitado e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s