Texto 32

“Faz vinte anos que eu não me sentia triste”. Cees Nooteboom disse isso e me veio a tona a incrível idéia de que a tristeza é um sentimento tão despertável quanto qualquer outro, ele não é simplesmente a falta da alegria, ele é a alegria ao inverso, provocada, objetiva, projetada em algo que faça a tristeza de fato ser triste. Sendo assim, podemos separar a tristeza burguesa das demais, ser triste em tempo integral é a maior prova de uma vida infundada, já que a tristeza emerge da falta de sentido para algo, portanto isso não é tristeza, é vazio, e o vazio pode provocar a tristeza, mas em nenhuma hipótese a tristeza pode ser tão duradoura quanto o vazio, já que em alguns momentos vislumbramos momentos felizes, mas nem por isso deixamos de ser vazios, certas vezes colocamos um bom som, abrimos uma garrafa de algo memorável e o deleite solo vem naturalmente, viajar sozinho, ir ao cinema sozinho, tudo isso pode ser bom, até feliz, e pode ser, como sempre fora pra mim, extremamente vazio, solitário e com uma sensação de tempo perdido que perdura tanto quanto o tempo que perco. O vazio é a tristeza da classe média, a tristeza apresentada nas novelas, causada por elas, a tristeza das revistas de fofocas, a tristeza pela desgraça alheia, tudo isso é vazio consigo próprio, em nenhum momento ninguém se sentiu vazio por levantar uma bandeira, por dizer o que pensa, por seguir uma conduta dotada de sentido, mas muitas vezes isso causou tristeza, e como aquela causada pelo fato do time perder a final do campeonato, essa tristeza só dura até a próxima vitória. Essa tristeza é dotada de um significado especial, somos tristes por uma peça que não se encaixa, pela falta de um fundamento, mas se uma peça não se encaixa significa que antes de tudo há todo um quebra-cabeça, essa tristeza não é vazia. A tristeza de verdade é delatora de uma irregularidade na existência humana, mas, ainda parafraseando Nooteebom, não posso garantir nem que nós existimos de fato, quanto mais que somos tristes. Vinte anos sem tristeza não significam vinte anos de alegria, essa é a questão. Sendo assim, como se provoca a tristeza de verdade? O fato é que a tristeza só é concreta quando explicável, a tristeza pura é depressão, depressão é uma doença e doenças não são sentimentos, há que se explicar, a tristeza vem com um motivo e quando ele é sanado a tristeza deve necessariamente ir embora, e daí surge uma alegria advinda do fim da tristeza ou uma mero estado torpe, normal, onde qualquer ser humano médio se encontra. Ser triste é uma contradição, a existência não esta atrelada a qualquer tipo de sentimento única e exclusivamente, ela é uma miscelânea deles, é uma forma de vê-los emergir a todo momento e explodir todas as emoções, a tristeza que não advêm de outros sentimentos, digamos a pura, é tão boa quanto qualquer outro sentimento, é a plenitude de uma das facetas do ser humano, não é a tristeza pela morte, esse pode ser desespero, saudade, inconformação, ou tudo junto, não é a tristeza pela perda, não é nada disso, é a pura tristeza, nesse momento nos desvinculamos até da causa da tristeza, por que a tristeza também é racional, ela vem depois, ela é conseqüência de algo, a tristeza é quando a razão toma conta de algo que fizemos, talvez a tristeza nem seja um sentimento, seja um estado da alma humana, seja a elevação do sentimento anterior a categoria de submisso, ultrapassado. A tristeza é necessária, e nunca deve ser banalizada, agora, nesse momento não estou triste, nem sequer feliz, estou satisfeito, e esse é um sentimento completamente diferente. Como qualquer sujeito normal eu tenho planos, e se quando chegar a hora eu não conseguir realizá-los, ficarei frustrado, deprimido, depois tentarei descobrir por que eles não se realizaram, e quando descobrir, só ai ficarei triste de verdade, triste pela incapacidade, e quando por fim resolver minha incapacidade, e se por algum motivo eu tiver outra oportunidade e desta vez conseguir realizar meus projetos, ai deixarei de ser triste por isso, talvez até fique feliz por algum tempo, mas a felicidade também deve passar, sendo o contraponto da tristeza, a felicidade deve assumir suas mesmas características, ela acaba quando a realização de meus projetos deixarem de ser um novidade e se tornarem parte do meu quotidiano, quando eu me acostumar. Mas é importante entender que estou partindo do pressuposto que ficarei feliz com a realização dos meus projetos, pois eles podem ser tão simples e mecânicos que a realização deles signifique apenas a manutenção do meu estado de não tristeza. Viram aonde chega a complexidade? Ser feliz é quebrar paradigmas, avançar em relação a tudo que havíamos feito e planejado, ser triste é deixar de cumprirmos com o que nos foi proposto ou o que nós nos propomos, das coisas mais básicas, certa irresponsabilidade é a principal causa da tristeza, é todo momento que deixamos de fazer algo que esta ali apenas para a manutenção do estado de não-tristeza, é o estopim para a erupção de uma onda de sentimentos que mais tarde se concretizaria na tristeza propriamente dita, lá naquele momento onde reside apenas a razão. Ser triste é ter completa consciência do que foi e do que era pra ser. Ensaisticamente falando é tenebroso tentar quantificar, rotular e entender os sentimentos, teoricamente eles deveriam habitar o escaninho da emoção, e emoção e razão não se misturam, mas por outro lado é preciso quebrar essa barreira, mesmo que daqui a algum tempo essa minha satisfação desperte uma razão em mim que me deixará triste por profanar o templo sagrado os sentimentos.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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