Texto 22

O lado direito da base da minha coluna. É onde começa uma dor que se alastra até a minha coxa direita, que deixa meu cérebro torpe e minha vista cansada. É a minha dor laboral, é o que eu ganho junto com o salário, faz parte da minha motivação, a vitória que recompensará minhas dores intermináveis, minha insanidade perdida e meu desespero crônico. Eu já sou insuportável, eu coloco a caneta no papel e a deixo fazer o que quiser, ela rabisca e desenha, e descreve minha alma, além de tudo, meu corpo exausto ainda precisa carregar a minha alma, e ela é o que mais pesa, pesa na minha consciência, ela e o medo de ir pro inferno, ou de já estar nele. Meus músculos se contorcem e gemem cadenciadamente, sufocados pelo ácido láctico que corre pelas minhas veias, eu já sou inteiro passado, minha mente é o que me resta, por pouco tempo, com as horas ela se vai e com ela se esvai minha memória, minha atenção e minha capacidade de raciocínio, meu suposto zelo por tudo, minhas diferenças com as indiferenças, minha multifacetada e nada notada ausência. Minha discrição descreve minha posição subalterna, saturada, aturada e aturando eu me demonstro como um péssimo funcionário, como alguém que simplesmente sobrevive seis horas por dia em um estágio paralitico, mentalmente paralisado. Um estado apocalíptico, decapitado, relapso, improvisado em todos os setores e por isso sem tempo pra nenhum, acontece que mesmo as coisas mais simples, pueris, precisam de tempo, dedicação, precisam ser bem feitas, e é impossível ter excelência com telefones tocando, crianças chorando, adultos berrando, brigando, se indispondo e me colocando a beira da catarse, simplesmente É impossível conviver sem condições de convivência, sem que as coisas tenham propósito, assumam controle e detenham-nos por tempo indeterminado, acontece que agora a responsabilidade é sua, mesmo que você não saiba, ela é sua e quando tudo estourar será na sua mão, eu já terei pulado do barco e me afogado, morrido e assim renascido no céu, ao lado de quantas virgens eu quiser. Acontece que esse terrorismo surte tanto efeito quanto um aneurisma cerebral, uma pancada bem dada na base da nuca, essa cobrança não resolve nada mais do que o fato de que no futuro será preciso cada vez mais cobrança, essa lábia e esse tino não servem pra absolutamente nada quando ninguém mais sabe o que quer, eu não sirvo pra mim mesmo, eu me demitiria assim que possível. As pessoas se trancam em salas claustrofobicamente planejadas e discutem, e conversam, e transam e utilizam tudo aquilo que elas aprenderam em suas aulas na faculdade de administração ou economia, enquanto eu só quero sair correndo pra aula de sociologia, as pessoas se trancam nessas salas e debatem acerca da conduta, da vida pessoal, da vida emocional, do porque de se jogar dinheiro fora, do por que de não darmos os resultados esperados, ora, esperados por quem? Por sujeitos engravatados que nós vemos apenas duas vezes na vida, e que não fazem absolutamente nada mais do que apertar mãos, gravar vídeos institucionais e receber as pressões daqueles que são maiores do que eles, e nós recebemos a pressão de quem é menor do que nós. Isso cansa, desnutre e esgota um mortal, isso é a suma excelência do acabar totalmente com a personalidade do individuo, trabalhar emburrece. Trabalhar nos causa um sono profundo e uma insônia incontrolável, nos apresenta amigos e nos coloca lado a lado com os piores pesadelos, realiza nossa independência e nos aprisiona no cárcere da labuta, nos coloca de quatro e nos suplanta, trabalhamos cento e trinta e duas horas por mês e no final ainda devemos pro patrão. Minha voz já está fraca, meu corpo ainda dói e meu cérebro esta lento, mas eu ainda me libertarei dessa conduta estúpida, eu quero ganhar a vida me divertindo, exatamente como agora, quero ir pra escola, estudar e quem sabe estudar pra sempre, nunca mais parar, quero ser milionário e minha providencia pra que isso ocorra será entregar minha carta de demissão, protocolada em três vias, registrada no cartório e analisada pelo RH da empresa onde eu trabalho, depois disso tudo eu pegarei quantas canetas e envelopes eu puder e sairei correndo de lá, irei em direção a minha cama, sentarei, e me deliciando rabiscarei em papeis timbrados todas as verdades que eu sempre sonhei em dizer pra todos os nossos “clientes”, tudo mesmo, falarei da calvície de um, da chatice de outro, desafiarei a brabeza destes e tripudiarei na benevolência daqueles, depois coloco as cartas nos envelopes e os entregarei de porta em porta, acompanhadas de uma risada gutural e de um brilho nos olhos penetrante, só assim eu serei feliz, e quem sabe assim minha dor que começou nas costas já tenha ido parar nas costas de quem ficou no meu lugar.

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Sobre drepo

Pedro Lacerda, filho de Robson Lopes e Marivalda Lacerda, do Vale do Jequitinhonha.
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Uma resposta para Texto 22

  1. Tiago disse:

    *clap clap clap clap*

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